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A cada dia que passa tem menos água na terra Urubu Branco dos Apyãwa

25/05/2018

Autor: Fábio Zuker

Fonte: Amazonia real amazoniareal.com.br



Kamoriwa'i Elber e Makapyxowa Valdemar são caciques do povo Apyãwa, conhecidos entre os brancos como Tapirapé, que é o nome do principal rio que abastece o território tradicional deles, mas que este ano secou na região devido aos impactos ambientais. Makapyxowa é tio de Kamoriwa'i. Em entrevista exclusiva à agência Amazônia Real, durante o Acampamento Terra Livre (ALT), que aconteceu no mês passado em Brasília, ambos falam sobre o processo de retomada da Terra Indígena Urubu Branco, que fica entre os estados do Mato Grosso e Tocantins. A partir de 1910, época do contato com a sociedade nacional, esse povo começou a ser expulso de suas terras por doenças, pelo próprio Serviço de Proteção aos Índios (SPI), pois o governo tinha interesse na exploração de látex nas terras.

A TI Urubu Branco encontra-se hoje demarcada, com 168 mil hectares. Tem uma população de mais de 700 pessoas. Os Apyãwa ainda sofrem com invasores não-indígenas, que se recusam a deixar o seu território, desmatando-o para a venda de madeiras e para a agropecuária extensiva.

Esse ano, diversos membros do povo Apyãwa se programaram para ir em peso ao ATL e discutir as questões que vivenciam em seu território. Mas de última hora, com o falecimento de um ancião, a proposta de viajarem em grande número não se concretizou. Estando de luto, Kamoriwa'i diz que não podem se pintar, nem dançar. Apesar disso, julgaram importante percorrer as 24 horas de viagem de ônibus entre as aldeias e Brasília, pagando todas as despesas de suas viagens, para fazer conhecer a sua situação política bem como a decisão judicial que define a desintrusão de seu território por parte dos invasores.

Na semana em que estiveram em Brasília, ao longo do ATL (que aconteceu de 23 a 27 de abril), participaram também de uma reunião na sede da Fundação Nacional do Índio (Funai), onde exigiram o cumprimento de decisão judicial para retirada de invasores da TI Urubu Branco.

A entrevista abaixo, que ocorreu durante apresentações e danças por parte de distintos povos indígenas, contou também com a colaboração de Ana Coutinho, antropóloga que trabalha junto aos Apyãwa. Kamoriwa'i e Makapyxowa falam, ambos, pausadamente, com voz baixa, em tom ao mesmo tempo sério e afetuoso: parecem preocupados com a situação que vivem, e conscientes da importância de comunicá-la.

Kamoriwa'i Elber - Sou cacique do povo Apyãwa, mais conhecido como povo Tapirapé. Estamos aqui no ATL, na luta, junto com os parentes, pela terra e pelos direitos que temos garantidos pela constituição.

Lá [em nosso território], temos um problema. A Terra Indígena [reconhecida] pelo branco, já foi demarcada e reconhecida pela União. O problema lá é a desintrusão da parte norte da Terra Indígena, que está invadida até hoje, apesar dela ser demarcada. Ela continua invadida pelos fazendeiros e posseiros, principalmente pecuaristas. Nós tivemos uma boa conquista... parte dela, né? Pois nós estamos lá dentro da reserva, mas a parte norte continua com problemas: pecuaristas e posseiros retirando madeira.

Existem famílias [de não-indígenas] que obtiveram liminar para permanecer lá. E recentemente, teve uma decisão, da Terceira Vara Federal de Cuiabá, dando o que eles entendem como decisão de mérito, ou seja... a decisão final quanto a desintrusão da terra indígena. Entreguei uma cópia final da decisão para a relatoria [do ATL]. E agora estamos buscando que essa decisão seja cumprida. Até o momento, a Funai não se manifestou para que seja cumprida a decisão. Estamos correndo atrás, e pedindo o apoio do ATL, para que os invasores saiam de lá.

Antes, vivíamos em outra terra, a Terra Indígena Tapirapé/Karajá. Mas a Terra Indígena tradicional é essa pela qual estamos lutando, a Terra Indígena Urubu Branco. Nosso povo, depois do contato com os brancos, naquela época, não sabíamos como nos defender. Então o pessoal foi levado pelo SPI [Serviço de Proteção aos Índios, órgão que antecedeu a Funai] para a Terra Indígena Tapirapé/Karajá. E todos os anos, o pessoal visitava o território tradicional: pegando material para arco e flecha, material medicinal... As coisas que a gente utilizava no dia a dia. Todo ano a gente ia lá.

Participei várias vezes da visita. Até que um dia, as fazendas começaram a impedir à nossa ida [ao território tradicional]. Foi aí que surgiu, dos [índios] mais velhos, dizer que aquele território... não poderíamos perder: que é muito importante para o nosso povo, do ponto de vista espiritual. Perder esse território era impossível: "olha, os brancos estão impedindo", diziam os mais velhos, "então temos que retomar aquela área". Senão, vamos acabar não indo mais para lá. E nessa época, passam a existir leis [refere-se à Constituição Federal de 1988] que reconhecem que podemos ocupar nossos territórios tradicionais. Então retomamos, em 1993... a primeira família volta ao território tradicional. Retomamos, e a Funai, obrigatoriamente, teve que criar um Grupo de Trabalho para identificação e demarcação. Todo mundo conhecia aquela terra como nossa: diversos livros, os antropólogos que passaram lá, já tinham escrito que aquela terra era nossa.

[Ana Coutinho comenta que a retomada de Urubu Branco "foi importante também para a retomada de toda uma vida ritual, de cantos, de máscaras e de roupas rituais", afirmação com a qual Kamoriwa'i e Makapyxowa concordam sem hesitar]

Com a terra demarcada e homologada, todo mundo saiu já. Só temos agora o problema da desintrusão (desocupação). Pela liminar [concedida aos fazendeiros e posseiros] essas poucas propriedades na parte norte tinham o direito de ficar. Mas agora, já chegou a hora deles saírem.

A terra ficou praticamente destruída [entre a expulsão e a retomada pelos Apyãwa], porque a maior parte da floresta foi desmatada. Está praticamente destruída, e a vida da geração Apyãwa comprometida. Todos os povos indígenas tem que preservar a natureza, pois é dela que retiram seu sustento. A terra está praticamente destruída, mas continuamos por lá. O Rio Tapirapé, que cruza nosso território, ainda tem peixe, mas muito menos do que antes.

Pergunta - O território retomado estava muito desmatado?

Makapyxowa Valdemar - Eu queria contar um pouco da história da região Urubu Branco. Teve um dia mesmo, eu estava acompanhando a Funai e a Polícia Federal, e fomos até onde teve retirada da madeira pau-brasil... Muito madeireiro tirando pau-brasil. Então foram apreendidas várias motosserras, e quatro pessoas foram encaminhadas à Polícia Civil. Logo chegou o advogado do pessoal, e eles foram liberados. E isso acarreta em um desmatamento muito grande: retira pau-brasil, ipê, jatobá... essas madeiras. Esse lado onde está tirando madeira, já não tem mais caça. A gente caçava porcão, catitu, macaco, sapoti. A gente não come anta nem capivara. Está difícil para nós... não é aquele tempo em que tinha muita caça e peixe para nós. Tudo está diminuindo, com muita soja e milho. Aquele porcão que tinha para nós, acho que o fazendeiro está matando com veneno. Eu acho, né? Porque naquele tempo... era muito porcão!

Lá, onde a gente mora, [era onde] nosso bisavô morava. Pegamos muito desmatamento, e nosso avô e bisavô moravam lá.



Pergunta - Existem propostas para recuperar a mata?

Kamoriwa'i Elber - Hoje, pensaríamos mais no reflorestamento. Porque as fontes, a maior parte das fontes do rio, elas nascem na terra indígena. As fontes precisam ser preservadas, mas muitas delas já estão descobertas. E a gente sempre pensa: "está na hora de reflorestar essas fontes", pois cada ano que passa, diminui a água. Em 2017, e agora 2018, a gente viu o Rio Tapirapé secar. Nunca aconteceu isso, de poder passar a pé [de um lado para o outro]. Estamos percebendo que a cada ano que passa isso está diminuindo.

Temos uma pequena equipe de 38 indígenas de nosso povo, que se formaram em um curso técnico de agroecologia na UFMT, e estamos pensando a questão do reflorestamento. Tem também a compensação à construção BR 158, mas isso ainda não começou. Estamos lutando principalmente com a questão da preservação das fontes de água.

[Ana Coutinho pergunta se isso tem relação com a soja, pois existe uma fazenda vizinha a Terra Indígena]

Ah, sim! Pois está sendo devastada toda a beira do rio. E com certeza vai agrotóxico. Todas as fontes que saem da Terra Indígena, passam dentro da fazenda: a beira dos córregos já foi desmatada... E quando chove, a enxurrada leva todinha veneno pelos córregos, e cai no rio. Isso é muito preocupante... estão acontecendo muitas doenças respiratórias, gripes. Os mais velhos, que viviam dentro da mata, caçando, coletando, viviam tranquilos. Nunca pegaram essas doenças que a gente pega.

Makapyxowa Valdemar - Primeiro, Fábio...eu conheci um pouco de como nós vivíamos. Eu conheci meu pai e minha mãe, e naquele tempo, em que não tinha desmatamento, a gente ficava muito tranquilo, sem preocupação das doenças que chegam para nós. Hoje, eu estranho... eu nunca tinha visto doenças, mortes de câncer. Hoje temos essas doenças, porque os fazendeiros jogam o veneno. Não nos preocupávamos com doença, não nos preocupávamos em passar fome. E hoje estamos preocupados: não tem mais caça, não tem mais água... pois é árvore que dá chuva.

Quando eu cheguei na região Urubu Branco, os córregos nunca tinha secado. E agora, duas vezes no último ano, eu vi secar. E morreu muito peixe, muito, muito mesmo. Esse peixe, essa caça, está tudo morrendo de sede, pois seca tudo. Isso, eu estou vendo, Fábio. Mas fazendeiro não vê nada disso. Só querem ver o dinheiro [utiliza o termo em tapirapé para se referir a dinheiro, e ambos riem ao traduzirem-no ao português].



Pergunta - Contem um pouco sobre como vocês entendem essa relação com o território e a natureza?

Kamoriwa'i Elber - A mídia muitas vezes divulga as questões [políticas], mas nosso conhecimento não é o da ciência, vamos dizer assim. Para nós a questão espiritual é muito importante. Qualquer povo aqui, no acampamento, vai dizer quais são os espíritos que eles acreditam, que cuidam da natureza. Pois a natureza tem dona espiritual. E a partir do momento em que ela é destruída, ela começa a reagir. É o espírito que reage, e não a natureza em si, a dona dela que reage. E isso está sendo divulgado pela mídia... a destruição que acontece nas grandes cidades, pois já não tem cobertura vegetal: a água enchendo, a terra caindo... isso é uma reação da natureza, por isso que é preciso preservar a natureza. Está começando... mas ela vai fazer com que a humanidade também sofra a consequência. Estamos começando a ver as consequências da natureza. Muitos não-indígenas não acreditam, mas nós acreditamos. Essa reação é do espírito da natureza. Os grandes empresários não acredita... mas nós acreditamos.

Makapyxowa Valdemar - E eu acredito muito. Porque aprendi um pouco de pajé, e vejo muito espírito. Árvores: têm espírito. Água: tem espírito. A montanha: muito... demais de espírito. Então, esse branco que está fazendo desmatamento... o espírito fica bravo. A mata tem dono, tem espírito... tudo está mudando através de espírito. Naquele tempo [antigo], não era assim: não parava cedo chuva, não tinha trovão bravo. No tempo meu, minha mãe nunca dizia "vem aqui, para de brincar! Tá vindo chuva!". Hoje temos medo da chuva, porque tem trovão bravo. Aonde você vê muito peixe, tem espírito, aonde você vê caça, tem espírito. Então isso, Fábio, a gente acredita muito.
 

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