De Povos Indígenas no Brasil
Foto: André Toral, 1980

Avá-Canoeiro

Autodenominação
Ãwa
Onde estão Quantos são
Família linguística
Tupi-Guarani

Segundo a literatura histórica, os antigos “Canoeiro” da bacia do Rio Tocantins, povo de língua tupi, preferiam a morte a se render ao inimigo e assim ficaram famosos como o povo que mais resistiu ao colonizador no Brasil Central, recusando-se terminantemente a estabelecer qualquer contato pacífico. Desde o início do século 19, após embates e fuga dos colonizadores, parte do grupo que vivia nas cabeceiras do Rio Tocantins se dirigiu à região do médio Rio Araguaia, onde passou a disputar o mesmo território com os Karajá e Javaé, que habitavam a região há séculos. Com a separação dos Avá-canoeiro há cerca de 170 anos, os dois grupos – do Rio Araguaia e do Rio Tocantins – passaram a ter uma história distinta, tendo em comum apenas a vivência do genocídio. Um grupo de 10 sobreviventes foi capturado por uma violenta Frente de Atração da FUNAI no médio Araguaia em 1973 e 1974, enquanto 4 pessoas do alto Rio Tocantins, bastante fragilizadas, procuraram estabelecer o contato em 1983 com moradores regionais. Atualmente, o grupo do Tocantins vive em opressão sob a tutela de um convênio indenizatório entre FUNAI e FURNAS, enquanto o grupo do Araguaia vive disperso em aldeias karajá e javaé, embora esteja à frente de um notável processo de resiliência, afirmação étnica e retomada de parte do território tradicional.

Nome e origem do povo

Foto: O pajé e líder Tutawa, Fazenda Canuanã. Capão de Areia, Klaus Gunther, 1973
Foto: O pajé e líder Tutawa, Fazenda Canuanã. Capão de Areia, Klaus Gunther, 1973


Até a década de 1960, o grupo era conhecido como “Canoeiro” na literatura, em razão da grande habilidade na utilização de canoas nos primórdios do contato com os colonizadores. Segundo Couto de Magalhães, que teve a oportunidade de recolher um vocabulário junto a um casal do grupo no Aldeamento Estiva, em 1863, quando era Presidente da Província de Goiás, os Canoeiro “tem esse nome, por se terem tornado célebres os seus ataques contra os navegantes do (Rio) Maranhão, a quem acometiam em levíssimas ubás e com agilidade tal, que chegavam sem ser pressentidos, retirando-se sem sofrer dano”.

O antropólogo André Toral mostrou que o termo “Avá-Canoeiro” consolidou-se na imprensa entre 1969 e 1973, na ocasião da ativação de duas frentes de atração simultâneas pela FUNAI nos rios Araguaia e Tocantins. Ao termo “Canoeiro” foi adicionada a palavra “Avá”, que havia sido recolhida junto aos Avá-Canoeiro por Couto de Magalhães, um século antes, como sendo o etnônimo do grupo.

Os Avá-Canoeiro autodenominam-se Ãwa, palavra que, “como em outras línguas tupi-guarani, significa gente, pessoa, ser humano, homem adulto” (Teófilo da Silva, 2005:14).

Na região do Araguaia, os Avá-Canoeiro são mais conhecidos regionalmente como “Cara Preta”, nome que talvez tenha alguma relação com a origem do grupo, que foi motivo de debates na literatura, não tendo se chegado, ainda, a uma resposta definitiva. Alguns autores (Cunha Mattos, Couto de Magalhães, Rivet) alegaram que os Canoeiro eram descendentes dos Karijó de São Paulo, nome genérico dado aos índios de língua tupi-guarani trazidos de São Paulo pelo bandeirante Bartolomeu Bueno Filho, o segundo Anhanguera, conhecido como o descobridor da Capitania de Goiás.

Em 1971, o historiador Antônio Neiva demonstrou que há vários equívocos históricos na tradição oral goiana que teria fundamentado as hipóteses iniciais da descendência karijó. Logo depois, o linguista Aryon Rodrigues concluiu que a língua dos atuais Avá é nitidamente distinta dos dialetos guarani meridionais, sendo muito mais próxima linguisticamente de povos da família tupi-guarani setentrionais. Essa proximidade aponta para uma origem geográfica ou histórica mais setentrional do grupo, anterior à vida nas cabeceiras do alto Tocantins, em função dos grandes deslocamentos promovidos pela colonização.

A historiadora Dulce Pedroso retomou outro elemento da antiga tradição oral goiana, segundo a qual os Canoeiro eram mestiços dos índios Karijó com os negros fugidos dos quilombos. Na época do contato dos Avá do Araguaia, a imprensa local e nacional colheu vários depoimentos de moradores regionais, segundo os quais os índios que eram encontrados esporadicamente, antes do contato, “tinham a pele escura e os cabelos encarapinhados, sugerindo, desse modo, uma origem mestiça” (Pedroso, 1994:41). O mesmo tipo de depoimento foi obtido um pouco antes por um antropólogo da FUNAI quando a Frente de Atração da FUNAI foi instalada primeiramente no alto Tocantins, em 1971. André Toral mostra que os Avá-Canoeiro eram referidos como “índios negros” pela grande imprensa antes de serem encontrados. No entanto, os dois grupos que foram contatados no Araguaia e no Tocantins não apresentavam nenhuma característica física que evidenciasse uma possível afro-descendência, o que seria uma evidência clara, para a Pedroso (1994:40), de que é falsa a “teoria da origem cafusa”.

A autora não exclui, porém, a possibilidade de terem ocorrido casamentos ocasionais entre índios, negros e brancos no passado, uma vez que coletou documentos históricos e depoimentos orais de moradores regionais que revelaram a proximidade entre um antigo quilombo e uma aldeia avá-canoeiro na região de Niquelândia (antiga São José de Tocantins) no século 19. Além disso, a festa popular de Santa Efigênia, realizada anualmente em Niquelândia por remanescentes de escravos, incorpora uma dança que, segundo a tradição local, teria sido aprendida com os índios da região, que estava inserida no antigo território avá-canoeiro.

Na região do médio Araguaia, é comum até hoje ouvir dos moradores regionais que alguns dos “Cara Preta”, antes do contato, tinham cabelos enrolados e a pele escura. É possível que a denominação “Cara Preta”, muito mais comum do que o termo Canoeiro ou Avá-Canoeiro, esteja relacionada a esta representação dos Avá no imaginário popular. É verdade, no entanto, que os Avá eram conhecidos pela pintura específica com tinta preta que faziam no rosto, como lembram os Javaé. Dulce Pedroso já havia especulado sobre a relação entre o termo e o uso da tinta preta de jenipapo como pintura corporal.

Foto: Tuakire, irmã de Tutawa. Aldeia Canoanã, Ilha do Bananal. Lena Tosta, 1997.
Foto: Tuakire, irmã de Tutawa. Aldeia Canoanã, Ilha do Bananal. Lena Tosta, 1997.

Quando perguntados sobre sua origem, sem ter sido feita menção a essa teoria não-indígena da miscigenação, os próprios Avá-Canoeiro do Araguaia disseram que o seu povo “começou” a partir da mistura mítico-histórica entre três grupos diferentes: os Avá-Canoeiro (Ãwa), os “outros índios” (bairàpagawai) e os “negros” (tapanha). O representante mais velho do grupo, 'Tutawa', que até falecer, em 2015, era a principal referência atual da memória pré-contato, fez questão de dizer em Português, sem o auxílio dos tradutores, que “eu também (sou) Tapanha (negro)”. Segundo Davi Wapotxire, traduzindo as palavras de seu avô, “os índios Avá têm um pouco de sangue de negro” e vários dos parentes não contatados tinham (ou têm) “o cabelo enrolado”, a “perna cabeluda” e “barba”, entre outras características associadas aos afrodescendentes. Essa informação foi retomada por Tutawa em seu depoimento ao filme Taego Ãwa.

A “mistura” teria se originado por meio de uma relação sexual forçada entre uma mulher avá-Canoeiro e um homem negro, o que acrescenta o componente da violência sexual e de gênero ao histórico de relações com os não índios. A versão nativa inclui também “misturas” arquetípicas com outros povos indígenas, sem entrar em detalhes sobre quem seriam esses povos. A narrativa ãwa não esclarece a hipótese karijó, mas demonstra uma consciência histórica sobre a colonização do Brasil Central e corrobora, em parte, a versão regional sobre o seu passado, uma vez que teria havido intercâmbios – não voluntários a princípio – entre os Ãwa e a população negra da antiga Capitania de Goiás.


Língua

A língua avá-canoeiro pertence à família tupi-guarani, do grande tronco linguístico tupi. Com a separação dos dois grupos conhecidos de Avá-canoeiro desde o início do século 19, foram desenvolvidas significativas diferenças dialetais entre o grupo do médio Araguaia e o do alto Rio Tocantins. O linguista Aryon Rodrigues comparou várias línguas da família tupi-guarani com a língua avá-canoeiro em meados dos anos 80. Baseado no vocabulário recolhido por Couto de Magalhães em 1863 e em uma lista colhida por um missionário do SIL em 1974, Rodrigues concluiu que a língua dos Avá-Canoeiro estaria muito mais próxima linguisticamente dos povos Tapirapé, Asurini do Tocantins, Suruí do Tocantins, Parakanã, Guajajara e Tembé, ou seja, de povos da família tupi-guarani mais setentrionais, em comparação aos Guarani do sul e sudeste.

Foto: Tutawa e sua neta Tuguimy, a primeira pessoa nascida após o contato. Aldeia Boto Velho. Patrícia de Mendonça Rodrigues, 2004.
Foto: Tutawa e sua neta Tuguimy, a primeira pessoa nascida após o contato. Aldeia Boto Velho. Patrícia de Mendonça Rodrigues, 2004.


Todos os Avá-Canoeiro do Araguaia falam ou pelo menos compreendem a língua avá-canoeiro, como foi constatado pela linguista Mônica Veloso Borges, professora da Universidade Federal de Goiás e estudiosa da língua avá, durante oficina com o grupo em 2013. Tutawa, pajé e líder histórico do grupo, insistiu em manter viva a língua junto aos seus descendentes. Todas as seis pessoas da primeira geração nascida após o contato são netos de Tutawa e filhos de Kaukamã, atualmente a única pessoa remanescente do contato ainda viva. Os filhos de Kaukamã são o fruto de uniões dela com homens javaé, karajá e tuxá. A língua persiste notavelmente, apesar de um contexto social extremamente adverso, pois os Avá são um grupo minoritário que vive em uma posição de marginalização social nas aldeias javaé e karajá. Pode-se dizer os Avá-Canoeiro do Araguaia são um grupo multilíngue, pois praticamente todos também falam o Português e falam ou compreendem os dialetos karajá e javaé, da língua karajá, do tronco linguístico macro-Jê.

Todos do grupo do Rio Tocantins também falam Avá-canoeiro e o Português.

Localização

Os Avá-Canoeiro estavam morando nas matas de galeria das margens das cabeceiras do Rio Tocantins, conhecido como Rio Maranhão em seu alto curso, uma região de planalto, quando foram encontrados pelos primeiros colonizadores do Brasil Central na segunda metade do século 18. Em razão dos massacres violentos, os Avá-Canoeiro iniciaram um processo irreversível de mudança das matas junto aos rios, onde andavam em canoas e estavam mais expostos aos colonizadores. Parte do grupo continuou vivendo na região de cabeceiras do Rio Tocantins, como refugiados em lugares inóspitos, quando teve a população reduzida drasticamente, enquanto outra parte deslocou-se, ao que tudo indica, em grupos separados, para a bacia do Rio Araguaia, o principal afluente do Rio Tocantins.

Os Avá-Canoeiro do médio Araguaia

Os primeiros registros da presença dos Ãwa em afluentes do Rio Araguaia, como as cabeceiras dos rios Crixás-Açú e Rio do Peixe, ao sul da Ilha do Bananal, são da década de 1830. Nos anos que se seguiram, os registros dão conta de uma movimentação cada vez mais para o norte, incluindo a travessia para o Mato Grosso, a chegada do grupo na Ilha do Bananal e, por fim, no sul do Pará no fim do século 19. O grupo passou a disputar o mesmo território de ocupação tradicional dos Karajá e Javaé, localizado dentro e fora da grande ilha fluvial. Na primeira metade do século 20, os moradores regionais e os Javaé se lembram de centenas de “Cara Preta” morando em aldeias situadas em locais recônditos do vale do Rio Javaés, que se tornou o seu território principal de movimentação até o contato em 1973.

Foto: Kaukamy e seu filho Wapoxire, Cacique dos Avá-Canoeiro do Araguaia, no Lago das Piranhas. Filme Taego Ãwa, Vinícius Berger, 2015
Foto: Kaukamy e seu filho Wapoxire, Cacique dos Avá-Canoeiro do Araguaia, no Lago das Piranhas. Filme Taego Ãwa, Vinícius Berger, 2015

No Araguaia, os Ãwa tiveram que se adaptar a um ambiente de características muito distintas do que conheciam originalmente no alto Tocantins, uma região de planalto e cabeceiras de rios, onde predominam as serras, o cerrado e as matas de galeria. O médio Araguaia, onde se situa a Ilha do Bananal, a maior ilha fluvial do mundo, com dois milhões de hectares, se localiza em uma peculiar zona de transição entre os biomas do Cerrado e da Amazônia, sendo constituído de vastas planícies inundáveis que compõem a maior área continua de várzeas do mundo. O vale do Rio Javaés, que forma a Ilha do Bananal e que ainda não havia sido alcançado pelas frentes de colonização até a década de 1930, passou a ser compartilhado pelos Avá-Canoeiro com o povo Javaé. Essa nova biosociodiversidade histórica impôs restrições e desafios ao uso da terra e seus recursos e aos padrões antigos de habitação e movimentação no espaço.

Apesar de terem compartilhado um mesmo território desde o século 19, os Avá-Canoeiro e os Javaé priorizavam ambientes e recursos naturais diferenciados em certa medida, o que permitiu a convivência histórica dos dois grupos na região. Enquanto os pescadores javaé e os karajá habitavam aldeias estáveis há centenas de anos nas margens de rios e lagos, e estavam primariamente interessados nos recursos aquáticos, os Avá-Canoeiro, mais por contingência histórica do que por opção cultural, abandonaram as canoas e a agricultura e privilegiaram as atividades de caça e coleta, que tiveram que ser adaptadas ao regime de inundações do médio Araguaia. Eles restringiram a sua ocupação territorial às matas interioranas e capões de mato mais inóspitos dos interflúvios, distantes das margens dos grandes cursos d’água, onde podiam se refugiar tanto dos povos indígenas ribeirinhos que dominavam a região historicamente como dos brancos que passaram a frequentar e ocupar o vale do Javaés.

O desafio para os Ãwa do Araguaia era encontrar os poucos lugares secos onde poderiam viver durante a estação cheia mantendo suas atividades produtivas. Nesse novo território que passou a ser conhecido intimamente também por eles, o ciclo anual de chuvas e alagamentos é um fator determinante para as atividades de subsistência. As aldeias dos Avá-Canoeiro estavam localizadas em lugares de difícil acesso, podendo-se dizer que o principal critério de moradia era a segurança dos moradores. Em outras palavras, em um tempo de abundância de recursos naturais, a preocupação em viver em um local onde não fossem caçados pelos brancos era maior que a preocupação em encontrar um local para caçar os animais.

O líder Tutawa lembra que seu grupo de parentes morava em uma gruta ao norte da Ilha do Bananal, no sudeste do Pará, durante a sua infância, na década de 30, onde ainda praticava a agricultura, antes de iniciar o deslocamento pelo vale do Javaés, cada vez mais para o sul, em fuga dos colonizadores (criadores de gado, mineradores, pescadores e caçadores profissionais), que massacraram aldeias e assassinaram centenas de índios. Na época do contato, em 1973, o principal acampamento dos Avá se situava no inóspito Capão de Areia, área elevada e seca de refúgio dos porcos selvagens na estação cheia, dentro da Mata Azul, localizada entre os rios Javaés e Formoso do Araguaia, fora da Ilha do Bananal. Em 1976, o grupo foi transferido pela FUNAI para a aldeia Canoanã, dos Javaé, situada na Ilha do Bananal, a cerca de 10 km do local do contato.

Foto: Kaukamy, sua filha Typyiri e seus netos na Aldeia Santa Isabel, Ilha do Bananal. Patrícia de Mendonça Rodrigues, 2014.
Foto: Kaukamy, sua filha Typyiri e seus netos na Aldeia Santa Isabel, Ilha do Bananal. Patrícia de Mendonça Rodrigues, 2014.

Atualmente o grupo vive disperso em aldeias javaé (Canoanã e Boto Velho) e karajá (Santa Isabel) da Ilha do Bananal, enquanto uma família mora em Palmas. Os Avá-Canoeiro do Araguaia têm como meta se reunir em uma futura aldeia na Terra Indígena Taego Ãwa, na região da Mata Azul, no Município de Formoso do Araguaia (TO). A terra foi identificada pela FUNAI em 2011 e declarada como de posse permanente pelo Ministério da Justiça em 2016, com cerca de 28.000 ha, mas os Avá ainda não moram nela por estar ocupada por fazendas e um assentamento do INCRA. Após o Ministério Público Federal (TO) ingressar com uma Ação Civil Pública, atendendo solicitação dos Avá-Canoeiro, a Justiça Federal determinou a demarcação da Terra Indígena Taego Ãwa em 2018, processo em andamento.

Os Avá-Canoeiro do alto Rio Tocantins

O diminuto grupo que sobreviveu no alto Rio Tocantins, conhecido como Rio Maranhão, também é remanescente de aldeias inteiras que foram atacas e destruídas por fazendeiros no século 20, como o massacre da Mata do Café, na década de 60, quando os sobreviventes passaram a perambular por anos, escondendo-se em grutas, onde foram atacados por uma onça, morrendo uma pessoa, e outros tipos de refúgio em locais de difícil acesso.

Foto: Iawí, T.I. Avá-Canoeiro. Cristhian Teófilo da Silva, 2003
Foto: Iawí, T.I. Avá-Canoeiro. Cristhian Teófilo da Silva, 2003

Após o contato, em 1983, a FUNAI reconheceu a Terra Indígena Avá-Canoeiro (GO), situada nos municípios de Minaçu e Colinas do Sul (GO). A área foi interditada em 1985, identificada em 1994, demarcada em 1999 e declarada como de posse permanente pelo Ministério da Justiça em 1996, com cerca de 38.000 ha. A partir de 1996, a terra foi parcialmente inundada pela barragem do Rio Tocantins para a construção da Hidrelétrica de Serra da Mesa. Atualmente o grupo vive em casa própria junto ao antigo Posto Indígena fundado pela FUNAI no Córrego Pirapitinga.

Histórico do contato e genocídio

Foto: Mario Chimanovitch, 1973
Foto: Mario Chimanovitch, 1973

História do contato/genocídio

A documentação histórica sobre a colonização da antiga Província de Goiás é farta em registros sobre a presença dos Avá-Canoeiro na região dos formadores do Rio Tocantins, conhecido como Rio Maranhão em seu alto curso, onde o grupo foi encontrado originalmente pelos primeiros colonizadores em meados do século 18. Na época, o auge do ciclo do ouro no norte da Capitania de Goiás já tinha passado, dando lugar a uma economia agropastoril.

No fim do século 18, a navegação pelos rios Araguaia e Tocantins, habitados por diversos povos indígenas, era prioridade para os dirigentes da Província de Goiás e para os comerciantes. O Capitão Tomaz de Sousa Villa Real, que realizou uma viagem entre Belém do Pará e a capital de Goiás pelo Rio Araguaia, entre 1791 e 1793, havia sido encarregado em 1789, pelo Presidente da Província de Goiás, de tentar um caminho mais curto até Belém pelo Rio Tocantins. A expedição causou um grande número de mortes, apesar da resistência aguerrida dos Canoeiro, que lutaram com as mulheres e os cães que os acompanhavam. Pedroso (1994) comenta que o massacre ocorreu no local conhecido como Ilha do Tropeço, no Rio Maranhão/Tocantins, perto da atual cidade de Peixe (TO), e é tido pelos autores clássicos da historiografia goiana como o principal fato histórico gerador de seguidas represálias dos índios ao colonizador até meados do século 19.

A resistência tenaz e inflexível dos Canoeiro tornou-se célebre, sendo recorrente na literatura histórica do século 19. Os historiadores resumem a questão dizendo que nunca se conseguiu realizar o contato pacífico com os Avá-Canoeiro, subjugá-los ou reduzi-los em aldeamentos, os quais lutaram para se manter autônomos até o contato forçado em 1973. Os conflitos entre os diversos povos indígenas da região e os colonizadores foram acompanhados de inúmeras bandeiras punitivas no século 19 e a fundação de presídios e aldeamentos nos rios Maranhão/Tocantins, Araguaia e seus formadores. Os conflitos mais acirrados com os Canoeiro ocorreram nas décadas de 1840 e 1850 e a diminuição da população foi acompanhada de grande dispersão territorial e fragmentação, de modo que, nas últimas décadas do século 19, os enfrentamentos haviam praticamente terminado.

Em razão dos massacres violentos, os Avá-Canoeiro se dividiram entre os pequenos grupos de refugiados que permaneceram na região do Rio Maranhão/Tocantins e os que se deslocaram a partir da década de 1830, pelo menos, para a região da Ilha do Bananal, no médio do Rio Araguaia. A região já era habitada em aldeias estáveis pelos Karajá e Javaé, com uma tradição cultural muito diversa, há séculos. A penetração dos Ãwa no antigo território karajá e javaé foi facilitada, em grande parte, pela redução populacional sofrida pelos últimos nos séculos 17 e 18 em função das expedições de bandeirantes. Com a chegada desse povo de guerreiros tupi, os Javaé, em especial, desenvolveram uma relação histórica de inimizade com os Avá-Canoeiro, de modo que os dois grupos mantêm uma memória viva e detalhada sobre esse passado de enfrentamentos ocasionais e mortes recíprocas.

Com a separação dos avá-canoeiro há cerca de 170 anos, os dois grupos passaram a ter uma história distinta, um local de habitação diferenciado do ponto de vista ambiental, desenvolveram variações dialetais da língua tupi-guarani e deixaram de cultivar uma memória de um passado comum, de modo que atualmente não reconhecem nenhum vínculo de parentesco entre si, distinguindo-se etnicamente, embora ambos se autodenominem Ãwa.

Ao contrário dos guerreiros ãwa, que recusaram qualquer tentativa de aproximação e foram caçados como animais selvagens pelos colonizadores, sendo obrigados a uma movimentação constante em uma vasta região, os Karajá e Javaé moravam em aldeias muito antigas e aceitaram as primeiras tentativas de intercâmbio pacífico dos brancos que navegavam pelo Rio Araguaia, ainda no século 18, apesar das violências sofridas, garantindo a sua permanência no território de ocupação imemorial e tradicional. Os primeiros criadores de gado e mineradores de cristal de rocha, vindos principalmente do norte e nordeste, instalaram-se na Ilha do Bananal e arredores a partir da década de 1930, ocasionando grande diminuição da população javaé e karajá em função das epidemias desconhecidas que se alastraram nas aldeias.

O projeto colonial e capitalista de ocupação do interior do país a partir da Marcha para o Oeste, iniciada nos anos 30, no Governo Vargas, que culminou com a construção de Brasília nos anos 50, pelo Governo JK, inaugurando um novo fluxo migratório no Brasil Central, e teve continuidade com o projeto de ocupação da Amazônia nos governos militares, nas décadas de 60 e 70, foi o fator determinante que levou os Avá-Canoeiro à beira da extinção física no século passado.

Foto: Mario Chimanovitch, 1973
Foto: Mario Chimanovitch, 1973

Na região do Araguaia, a literatura, a memória regional, dos Javaé e dos Avá-Canoeiro atribuem a famosos caçadores de “Cara Preta”, como Martim Cabeça Seca e Vicente Mariquinha, entre vários outros, o assassinato de centenas de índios e o massacre de aldeias inteiras nas décadas de 40, 50 e 60, como as que existiam na Serra das Cobras e no Lago da Onça, no interflúvio entre o Rio Javaés e o Rio Formoso do Araguaia, principal território de habitação dos Avá-Canoeiro nessa época. Tutawa narrou em detalhes ao Grupo Técnico da FUNAI que identificou a Terra Indígena Taego Ãwa como passou a metade da vida fugindo de massacres e incêndios de aldeias, tiroteios, assassinatos sucessivos dos parentes próximos, tocaias, cães de caça, caçadores de índios a cavalo.

A primeira expedição oficial do século 20 relativa aos Ãwa, iniciada em 1946, sob a iniciativa do Serviço de Proteção aos Índios, foi destinada a contatar os Canoeiro do alto Tocantins, que estavam sendo perseguidos e exterminados pela população do Município de Uruaçu, perto da antiga Amaro Leite, tendo como exemplo o massacre efetuado pela família Correia de Miranda. A equipe de campo montou um acampamento ao sul da Serra da Tromba, em local de difícil acesso, no divisor de águas entre os rios Tocantins e o Araguaia, tentando atrair os Canoeiro durante alguns anos. Apesar de vários vestígios dos índios, que chegaram a ser vistos pelos servidores, a equipe não conseguiu realizar a aproximação e a frente foi desativada em 1955.

Em meados dos anos 60, região do médio Araguaia, o Capão de Areia, dentro da inóspita Mata Azul, evitada até por cavalos e bois, entre o Rio Javaés e o Rio Formoso do Araguaia, foi escolhido como o último refúgio por 14 sobreviventes que integravam um grupo de parentes próximos e estavam encurralados por todos os lados. Essas pessoas foram caçadas por vaqueiros e viveram juntas os últimos anos antes da aproximação imposta pelo Estado, embora 3 tenham morrido antes da captura final. A mata estava dentro da imensa Fazenda Canuanã, dos irmãos Pazzanese, rica família de São Paulo, cuja sede havia sido instalada no sítio da antiga aldeia Kanoanõ, dos Javaé. Os Pazzanese destruíram um antigo cemitério javaé com seus tratores e se beneficiaram de recursos da SUDAM nos governos militares. No início dos anos 70, a fazenda iniciou uma parceria econômica com o grupo Bradesco, que decidiu instalar a primeira unidade rural da Fundação Bradesco ao lado da sede da fazenda.

A presença dos Avá-Canoeiro incomodava enormemente aos fazendeiros do médio Araguaia e do alto Tocantins em razão dos abates de animais domésticos, como bois e cavalos, hábito adquirido no século 18. Na segunda metade dos anos 60, novos massacres notórios dos Avá-Canoeiro do alto Tocantins, como o da Mata do Café, no Município de Uruaçu, e reclamações de fazendeiros locais sobre o abate de bovinos e equinos, levaram a 7ª. Delegacia Regional da FUNAI, o novo órgão indigenista, a instalar um Frente de Atração em 1971, no Município de Cavalcante, no alto Tocantins, que previa longas peregrinações por amplas áreas até atingir o Rio Javaés, na bacia do Araguaia. Há vários anos os fazendeiros do vale do Rio Javaés solicitavam sem sucesso à FUNAI que tomasse alguma providência em relação aos “Cara Preta”.

Foto: Acampamento dos Avá-Canoeiro do Araguaia abandonado antes do contato em 1973. Apoena Meireles & Denise Meireles, 1973
Foto: Acampamento dos Avá-Canoeiro do Araguaia abandonado antes do contato em 1973. Apoena Meireles & Denise Meireles, 1973

Diante dos vestígios da existência dos Avá-Canoeiro na região do Rio Formoso do Araguaia, principal afluente do Rio Javaés, veiculados pela grande imprensa, a FUNAI autorizou o desdobramento da Frente de Atração em duas no primeiro semestre de 1972: uma no Tocantins e outra no Araguaia, com atuação simultânea e com o mesmo chefe, o sertanista Israel Praxedes Batista. Como a lenta tática de oferecimento de brindes aos índios do Araguaia não obteve resultados, Praxedes foi substituído do comando da Frente de Atração no fim de 1973 pelo sertanista José Apoena Soares de Meireles, que em um mês decidiu realizar uma aproximação forçada, de supetão. O trabalho do jovem e famoso Apoena dentro da Fazenda Canoanã teve grande destaque e foi acompanhado pela imprensa nacional.

A equipe da FUNAI, acompanhada de quatro índios Xavante, que encontraram o local do acampamento dos 11 Avá-canoeiro no Rio Caracol, precipitou-se e entrou atirando e soltando fogos de artifício. Uma criança foi baleada, falecendo dias depois, fato omitido dos boletins oficiais da época. Depois dos tiros e dos fogos de artifício, parte do grupo conseguiu fugir, enquanto outra parte permaneceu no lugar a contragosto, seguindo a liderança de Tutawa, que decidiu se entregar, não porque confiou nos sertanistas, conforme o boletim oficial inverossímil produzido em 1973, que descreveu uma improvável “confraternização” entre índios e indigenistas, mas porque foi solidário com sua esposa e seu filho pequeno, os mais frágeis do grupo, que haviam sido capturados à força.

Os seis índios capturados, dois homens, uma mulher e três crianças, foram amarrados sob a mira das armas de fogo dos Xavante – que manifestaram a intenção de matar os Avá-Canoeiro, pois um Xavante havia sido ferido com uma flecha, conforme seria reconhecido pelo próprio Apoena em suas memórias tardias – e levados para o Capão de Areia, onde a FUNAI montou seu acamamento, e depois para a sede da Fazenda Canuanã, com a certeza de que seriam mortos. As quatro pessoas que fugiram dessa primeira investida da equipe da FUNAI foram contatadas seis meses depois, em 1974, com a ajuda de um dos caçadores de índios da Fazenda Canuanã, que foi integrado à equipe da FUNAI, e do próprio Tutawa, que foi induzido a acreditar, equivocadamente, que ele e sua família poderiam viver em paz em seu território se colaborassem com os sertanistas. No primeiro mês após a rendição final, os Avá-Canoeiro recém-contatados estavam em choque intenso e em estado de saúde deplorável, conforme os relatórios médicos da época.

Foto: Os Avá-Canoeiro do Araguaia recém-contatados. Fazenda Canuanã. Klaus Gunther, 1973
Foto: Os Avá-Canoeiro do Araguaia recém-contatados. Fazenda Canuanã. Klaus Gunther, 1973

Tanto os Javaé quanto os moradores regionais lembram-se muito bem do cercado em que os Avá foram colocados e expostos à visitação pública na fazenda, durante semanas, atraindo a curiosidade dos que vinham de longe para ver os “índios pelados”. Os agentes públicos que haviam caçado, capturado, amarrado e aprisionado os índios em uma espécie de jaula a céu aberto foram associados pelos espectadores presentes a domadores de animais. Em uma reportagem d’O Globo de 7.12.73, se diz que “quando se espalhou a notícia de que os ‘Cara Preta’ (...) haviam sido ‘domados’, veio gente de toda redondeza, a cavalo e à pé”. Algumas das fotos mais impactantes do contato foram tiradas pelo alemão Klaus Gunther nos primeiros dias de dezembro de 1973, que viajava de moto pela América Latina e por coincidência passava pela Ilha do Bananal. Suas fotos angustiantes nos revelam um pouco da situação de opressão a que os Avá foram submetidos na Fazenda Canuanã enquanto eram observados por curiosos.

E tanto os Javaé, que somavam cerca de 400 pessoas na época, quanto os Avá lembram-se com nitidez do período em que foram forçados a conviver na Mata Azul em um acampamento montado pela FUNAI. Os Avá foram supervisionados pelos Javaé da Guarda Rural Indígena, a GRIN, que foi treinada em um quartel da Polícia Militar de Belo Horizonte nos anos 60/70, em plena ditadura militar, sob uma ideologia de violência e tortura (Freitas, 2011). Os Javaé foram levados pelos sertanistas a servir de “amansadores” dos índios capturados, estabelecendo dali em diante uma relação de dominação. A FUNAI desconsiderou que os Javaé e os Avá-Canoeiro tinham uma relação de inimizade histórica, de modo que os últimos têm uma memória traumática tanto do episódio da captura como do acampamento vigiado pela GRIN, onde sofrerem abusos físicos e psicológicos diversos, relatados em parte à Comissão de Anistia (2011).

Os fatos relacionados à Frente de Atração causaram uma ruptura definitiva na vida dos Avá-Canoeiro do Araguaia, que dividem a história entre o antes e o depois da captura. Em 1976, a FUNAI determinou a transferência sumária dos sobreviventes para o Posto Indígena Canoanã, dos Javaé, sem consultar nenhum dos dois grupos. Pouco tempo depois, o grupo estava reduzido a 5 pessoas apenas, principalmente em razão de doenças para as quais não tinham imunidade. Entre os doentes, uma irmã e a segunda esposa de Tutawa, que morreram deprimidas, recusando-se a tomar medicamentos na aldeia.

Foto: Agàek, filho de Tutawa. Aldeia Boto Velho. Patrícia de Mendonça Rodrigues, 2009.
Foto: Agàek, filho de Tutawa. Aldeia Boto Velho. Patrícia de Mendonça Rodrigues, 2009.

Aos 5 que restaram, Tutawa, seus três filhos ainda muito jovens e sua irmã mais velha, Takira (“Tatia”), que perdeu os três filhos e o marido, coube carregar o pesado fardo de encarnar a alteridade em dois níveis diferentes: no universo local javaé, onde foram subalternizados como derrotados e como um tipo de humanidade inferior, sendo assimilados a uma tradicional categoria social de cativos de guerra, sofrendo uma série de privações físicas e marginalização social, embora tenha sido uma derrota imposta pelo Estado ; e no universo colonial mais amplo, em que uma ideologia e uma prática racistas se travestiram de um discurso naturalizante sobre os selvagens ou os mestiços aculturados. Para um povo que cultivou o espírito de resistência e autonomia como poucos, preferindo a morte à prisão durante séculos de colonização, a captura e o cativeiro final foram sem dúvida uma experiência devastadora.

O resultado prático da “atração” foi que os Avá-Canoeiro perderam definitivamente a sua mínima autonomia e as terras que ocupavam, de interesse também dos Javaé, para grandes propriedades rurais. Desde então, toda a margem direita do Rio Javaés ficou livre para a agropecuária e para a negociação imobiliária e os Avá-Canoeiro vivem até hoje dispersos em aldeias javaé e karajá em situação de grave marginalização socioeconômica, cultural e política. Os sobreviventes de um povo de exímios caçadores solicitavam comida nas casas de funcionários da FUNAI na década de 80. Nos anos 90, a Fundação Bradesco/Fazenda Canuanã ofereceu a eles pão e leite diário, em troca de cessarem o abate de gado ocasional, além de autorização para coletar as cabeças de bois e porcos que eram destinadas ao lixo.

Após o golpe de 1964, como mostra o jornalista Rubens Valente (Valente, 2017) em seu livro sobre a ditadura militar e os povos indígenas, e o próprio Relatório da Comissão Nacional da Verdade (2014), os militares deram continuidade ao antigo plano de “ocupação” da Amazônia legal, criando a SUDAM e sua política de isenções fiscais para grandes projetos de colonização. Um verdadeiro genocídio foi posto em marcha pelo Estado brasileiro e violências variadas foram cometidas e mantidas ocultas em documentos oficiais secretos nesse processo de conquista do território mediado por ações denominadas de “pacificação”, em que os povos indígenas eram percebidos e tratados como entraves ao progresso nacional. Na época, a política indigenista patrocinava transferências e a sedentarização dos grupos em sua busca pela “integração” dos povos indígenas à nação. A Fazenda Canuanã, na margem direita do Araguaia, de onde foram transferidos os Avá-Canoeiro, e a Fazenda Suiá-Missú, na margem esquerda, de onde foram transferidos os Xavante de Marãiwatsédé, foram duas das grandes fazendas do médio Araguaia que se beneficiaram dos recursos da SUDAM e da política de transferência forçada dos povos indígenas.

Foto: Mario Chimanovitch, 1973
Foto: Mario Chimanovitch, 1973

No alto Tocantins, a Frente de Atração continuou ativada com outros coordenadores até o ano de 2000, mesmo depois que duas mulheres adultas e um casal de crianças buscaram o contato por conta própria em 1983. Sobreviventes do massacre da Mata do Café, as duas mulheres foram esposas de um homem que morreu atacado por uma onça; uma delas era mãe da menina contatada, mas seu outro bebê foi morto por regionais; a outra mulher, que foi perseguida por cães e ainda carrega fragmentos de balas em seu corpo, teve um bebê que não sobreviveu ao parto; o menino contatado viu seus pais serem mortos por brancos, em momentos diferentes, seu pai com um tiro na cabeça, na Mata do Café, e sua mãe perseguida por cães e estuprada até a morte. Esses quatro sobreviventes viveram os últimos anos antes do contato morando em grutas e se alimentando precariamente.

Xamanismo e cosmologia

O processo histórico de genocídio, violência e fragmentação dos Avá-Canoeiro constituiu um grande obstáculo à pesquisa etnográfica e histórica do grupo, tanto em função da redução populacional quanto em função dos traumas gerados com o contato e a compreensível resistência dos Ãwa em dialogar com pesquisadores sobre o meu mundo particular no presente e no passado. Entre os Avá-Canoeiro do Araguaia, a perspectiva recente de regularização fundiária de uma terra própria permitiu o acesso de pesquisadores a informações importantes, principalmente quanto ao processo histórico do contato, não havendo até o momento estudos aprofundados sobre características da organização social ãwa.

Mesmo assim, foi possível constatar que certas características tradicionais e recorrentes de povos tupi estão presentes entre os Avá-Canoeiro, de modo que a resiliência pós-contato desse povo é algo que impressiona mais do que o processo de genocídio e perda da autonomia. Resiliência talvez seja o conceito mais apropriado para compreender a sua organização social, enquanto uma estrutura eminentemente histórica de mediação entre a tradição herdada e a situação de dominação. Os Avá-Canoeiro têm demonstrado ter mecanismos próprios – mesmo em uma situação-limite – para atuar sobre uma conjuntura desfavorável a partir de estruturas sociais e cosmológicas ancestrais e dinâmicas. Nessa perspectiva, torna-se obsoleta a descrição que pesquisadores e indigenistas fizeram do grupo do Araguaia, em especial, durante décadas, como um grupo “aculturado” ou “mestiço”.

Em seu livro clássico sobre os Araweté, onde faz uma revisão minuciosa da bibliografia sobre os povos de língua tupi-guarani, apontando traços gerais desses povos, o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro (Viveiros de Castro, 1986) conclui que a resistência à mudança social imposta pela sociedade brasileira se deu principalmente pela “vida religiosa”, associada ao xamanismo e a um elaborado discurso mítico e cosmológico. Desse modo, a “organização social” é indissociável da cosmologia e da mitologia.

Essas características persistem entre os Ãwa, que foram guiados pelo pajé 'Tutawa' durante décadas antes e depois do contato. Em várias ocasiões, os jovens das novas gerações demonstraram ter convicção sobre as explicações que 'Tutawa' forneceu sobre a constituição do cosmos, a origem das doenças, a causa das mortes, a vida após a morte e a origem espiritual dos animais, entre outros temas elaborados pela cosmologia nativa. O pai de Tutawa, chamado Wapoxire, de quem o atual Cacique Davi Wapoxire herdou o nome, era também um ipaje (pajé, xamã) poderoso.

Os Ãwa atuais acreditam que as curas não são realizadas com plantas medicinais, mas com a ajuda de espíritos auxiliares. Segundo a cosmologia nativa, Kagaiwa é o principal espírito auxiliar do xamã, que canta durante a sessão de cura, e também “está” na tinta escura do jenipapo, que ajuda na cura das doenças. Wapoxire era um pajé forte porque tinha muitos Kagaiwa como auxiliares. Kagaiwa mora no Céu (Iwãtxinã) e tem um poder extraordinário. Ele é humano em sua essência, mas também assume a forma da chuva e dos trovões. Os raios fracos que caem e limpam uma árvore sem derrubá-la, apenas secando-a, são Kagaiwa, enquanto os raios e relâmpagos fortes que racham a madeira são Bãipuata. Quando Kagaiwa tem raiva de alguém, ele entra no corpo do xamã e mata a pessoa com feitiço. O “espírito do morto” (inhanga) torna-se uma espécie de serviçal ou ajudante de Kagaiwa e passa a andar junto do xamã, embora seja invisível. Em suas viagens como xamã, Wapoxire entrava na casa invisível dos porcos selvagens junto com Waiakõ, outro xamã poderoso, que o acompanhou após a travessia do Araguaia. Os dois, juntos, tinham muitos espíritos auxiliares e, por isso, os porcos não faziam nada com eles.

O xamã “sonha” com os inhanga, que às vezes aparecem para os que estão vivos, assustando-os, a mando do xamã. Ao contrário dos mortos que vão para o Céu, os inhanga ficam aqui mesmo, acompanhando os xamãs. Os õema também são “espíritos dos mortos”, mas são diferentes dos inhanga, pois se referem às pessoas que continuam a andar na terra onde viveram depois da sua morte, sendo vistos, às vezes, pelos vivos. Os brancos que perseguiam os Avá-Canoeiro eram, na verdade, os inhanga (“espírito do morto”) enviados por Kagaiwa, montados em cavalos. Os Avá viam os cavalos, mas eram os inhanga que estavam em cima deles, a mando de Kagaiwa. Os Ãwa não sabiam o que era e corriam com medo, apavorados.

Foto: O pajé Tutawa pintado e cantando. Filme Taego Ãwa, aldeia Boto Velho, Vinícius Berger, 2015
Foto: O pajé Tutawa pintado e cantando. Filme Taego Ãwa, aldeia Boto Velho, Vinícius Berger, 2015

'Tutawa' também era pajé, embora não atuasse publicamente e não fosse tão poderoso como o seu pai. Segundo seu neto Wapoxire, ele enxergava a dimensão invisível quando estava sozinho, já tendo visto muitos dos antepassados que morreram. Nesse plano invisível, ele já viajou montado em cavalos, no meio dos brancos, pois ele era eimawa (“dono espiritual”) dos brancos (Bàirà) e dos cavalos.

Ao que parece, o xamanismo avá-canoeiro partilha do mesmo processo comum na Amazônia, e também entre os Javaé, de domesticação/controle do poder de entidades externas pelos xamãs. Após a morte, o “inimigo” tornar-se um espírito auxiliar do xamã.

“A terra é importante, porque os mortos ressuscitam”. Uma forma de ligação intensa com a terra tradicional, por meio de padrões culturais que ainda se mantêm, é a visão xamânica dos mortos. Para os Ãwa, o “espírito” (õema) de uma pessoa sai de seu corpo depois da morte, mas posteriormente ele retorna e fica andando no lugar onde vivia, em um tipo de ressuscitação. Segundo 'Tutawa', sua mãe e muitos dos outros que morreram “voltaram” a viver de modo invisível, os quais foram vistos por ele durante suas visões xamãnicas. Às vezes os vaqueiros dizem que veem os Avá-Canoeiro andando na mata, mas muitos deles seriam esses õema que voltaram e que andam na terra onde viviam.

A ligação sagrada com a terra continua existindo mesmo depois do genocídio e da transferência compulsória para uma terra alheia, seja por parte dos vivos, que entram em contato com seus parentes mortos nesses lugares habitados tradicionalmente, seja por parte dos mortos, que perpetuam seu apego à terra e aos parentes retornando a esses lugares. Segundo Davi Wapoxire, baseado nas explicações de seu avô, quando ainda era vivo:

“(...) A terra faz ressuscitar os que morreram. Eles continuam vivendo na mata. 'Tutawa' já viu muitos desses que morreram. Mas os mortos têm muito medo agora, mais medo ainda do que antes, por causa da perseguição que eles viveram. Por causa disso, eles fogem do próprio Tutawa com medo. O 'Tutawa' tem vontade de pegar o espírito do ‘Puchikau’ e trazê-lo de novo para morar com ele. Õema é o espírito que ressuscitou. 'Tutawa' sonhou com três parentes mortos e que ele os tinha trazido para a casa da Sieli. Os espíritos ficam andando naqueles lugares onde eles viveram antes. Os õema não ficam só no lugar onde foram enterrados, eles andam em todos os lugares onde viviam.”

Os mortos que foram perseguidos pelos brancos são vistos pelo xamã no território com o qual mantêm um vínculo afetivo e histórico, mas agora faz parte deles o terror que viveram durante o processo de caça aos índios pelos moradores regionais e, depois, pelo Estado. O pânico é tão grande que eles fogem de seus próprios parentes. A história da colonização é incorporada à escatologia e às visões xamânicas, revelando que a cultura avá-canoeiro não é uma entidade estática e rígida que se desfaz diante do contato, mas uma mediação constante entre o passado e o presente, identidade e alteridade, tradição e colonização, de modo que os novos Avá-Canoeiro continuam se recriando como Ãwa a seu modo e apesar de todas as restrições.

A importância da nominação

Outro modo notável pelo qual os Avá-Canoeiro têm reproduzido sua antiga tradição se dá por meio da onomástica, ou seja, a relação de nomes pessoais que são transmitidos entre as gerações. A Antropologia tem acumulado nas últimas décadas todo um conhecimento sobre a importância extraordinária dos nomes indígenas nas terras baixas sul-americanas. As práticas relativas ao ato de doar e receber nomes têm um alcance social e cultural muito mais vasto do que o objetivo imediato de individualizar uma pessoa. Por meio dos nomes transmitidos através das gerações, muitas vezes como um bem valioso ou como uma propriedade ritual de um grupo, as sociedades indígenas – dependendo de cada caso – conectam os vivos com os mortos, os recém-nascidos com um grupo familiar mais extenso, fornecem uma persona ou um papel cerimonial pré-estabelecido a uma pessoa ou estabelecem contrastes sociais entre grupos, atuando como mecanismos classificatórios, entre outras funções. Na maioria dos casos, os nomes não são vistos apenas como conceitos abstratos, mas são associados às dimensões invisíveis ou corporais da pessoa. O nome é pensado muitas vezes como parte do próprio corpo da pessoa ou como um outro tipo de corpo invisível, de modo que os nomes mudam conforme o corpo vai se transformando, como é o caso dos Avá-Canoeiro.

Os nomes podem conter tanto uma “identidade” física, social, política e histórica mais ampla, conectando várias gerações, como podem ser associados às porções invisíveis da pessoa, normalmente traduzidas com os conceitos até certo ponto reducionistas de “alma” ou “espírito”, por exemplo, por meio do xamanismo. No caso das sociedades indígenas do Brasil, as conexões com os ancestrais e os mortos tendem a ser estabelecidas muito mais pela transmissão ritual ou não de nomes do que por meio de uma consciência genealógica. No caso dos povos Tupi-Guarani, Viveiros de Castro (1986:386-387) fornece vários exemplos a respeito das práticas de nominação e mostra que “(...) a onomástica Guarani moderna (...) depende do xamanismo e está vinculada a uma origem divina do nome-alma, seja em termos de reencarnação de mortos ou seres celestes. (...) Na maioria delas há nomes de infância, quase-apelidos, e há trocas de nome por iniciação pubertária, casamento, sonho, homicídios”.

O modo como se dá a nomeação e transmissão dos nomes avá-canoeiro vincula-os aos povos Tupi-Guarani, uma vez que há trocas de nomes conforme a fase da vida da pessoa, tanto no grupo do Araguaia quanto do Tocantins, principalmente no caso dos homens. Sabe-se também que o pajé 'Tutawa' foi o responsável pela escolha da maioria dos nomes das crianças, associando-se a figura do xamã à onomástica. Os nomes da maioria dos que nasceram depois do contato são os mesmos dos antepassados próximos que morreram durante o processo histórico de fuga, aprisionamento e submissão ao colonizador, a maior parte deles em condições trágicas. A nomeação dos jovens adquire outra dimensão quando inserida nesse contexto histórico e político, como se apenas uma visão histórica de todo o processo do contato fosse capaz de proporcionar uma compreensão mais acurada da onomástica atual. Aqui – e em todo lugar – a “cultura” não pode ser abstraída da “história”.

O processo de nominação dos Avá-Canoeiro do Araguaia indica, no mínimo, uma profunda consciência histórica e política do grupo, que está sendo transmitida para as novas gerações. Além de reproduzir padrões culturais antigos, indica também uma forma de se recriar e perpetuar a identidade ãwa no novo contexto de opressão e casamentos interétnicos, atualizando o vínculo dos novos Avá-Canoeiro com seus parentes vivos e com seus antepassados. Pode ser vista também como uma forma de memória do passado que não deve ser esquecido, de homenagem e ligação afetiva com os mortos ou de reconhecimento do seu sofrimento e importância para o grupo.

A importância extraordinária dos nomes tradicionais para os Avá-Canoeiro foi explicitada pelo desejo antigo que tinham de retificar seus documentos oficiais, onde apelidos, nomes errados, pejorativos ou de outras línguas, além de genealogias incorretas, foram registrados como nomes próprios à revelia de seus portadores. Apenas os valiosos nomes indígenas, que eram mantidos na intimidade do grupo, foram registrados nos novos documentos retificados em 2019, fruto de uma oficina com a Profa. Mônica Veloso em 2013, apoiada pela FUNAI.

Foto: A menina Kaukamy, filha de Tutawa e Taego. Fazenda Canuanã. Klaus Gunther, 1973.
Foto: A menina Kaukamy, filha de Tutawa e Taego. Fazenda Canuanã. Klaus Gunther, 1973.

O sentimento de apego visceral à terra, aos antepassados e aos mortos parece não ser mais do que a reprodução, em um outro plano, da força do vínculo amoroso que os Ãwa demonstram manter entre si e com suas crianças, como se a ligação profunda entre os parentes fosse a medida básica das relações, e não a guerra aos inimigos, modo como foram representados na literatura durante séculos e que os insere no clássico complexo tupi de sociedades guerreiras. Apesar dos séculos de resistência e guerra, foi do amor cuidadoso de uns pelos outros e da transformação dos filhos de “outros” em parentes amados, dentro de uma lógica de incorporação da alteridade, mas também de nutrição dos vínculos de parentesco, que se forjou a resiliência em um ambiente hostil.

A relação com os recursos naturais e a cultura material

Os Avá-Canoeiro atuais também demonstram continuidade com os antepassados por meio da sua relação com os recursos naturais. Em seu estudo comparativo sobre os povos tupi, o antropólogo Roque de Barros Laraia (Laraia , 1986) chega à conclusão que duas características principais os distinguem de outros povos indígenas: “a sua filiação linguística e a sua fidelidade a um tipo de habitat comum, a floresta”, categoria que pode incluir diversos tipos de cobertura vegetal e que tem uma importância tanto econômica quanto simbólica. A agricultura e a caça, nesta ordem, seriam as fontes de alimento mais importantes. Em sua pesquisa histórica, Pedroso (1994) mostra que os Avá-Canoeiro do século 18 não fugiram à caracterização geral de Laraia, pois, embora sejam – juntamente com os Tapirapé – intrusos tupi em uma região de cerrados habitada por povos de língua jê, provavelmente oriundos do baixo Tocantins, viviam em matas de galeria às margens dos grandes rios. As informações na literatura sobre o uso dos recursos naturais pelos Avá-Canoeiro, no entanto, são mínimas.

Foto: Tuia carregando lenha para a oca, T.I. Avá-Canoeiro, 2003. Cristhian Teófilo da Silva, 2003.
Foto: Tuia carregando lenha para a oca, T.I. Avá-Canoeiro, 2003. Cristhian Teófilo da Silva, 2003.

Entre os Avá-Canoeiro como um todo, o padrão de habitação e o uso dos recursos naturais foram condicionados, em grande parte, pelas condições críticas de sobrevivência que o grupo enfrentou historicamente, o que levou a grandes alterações, incluindo a perda de antigos hábitos e a inclusão de novos. Como já foi dito, as aldeias, em um primeiro momento, e depois os acampamentos provisórios, estavam localizados em lugares de difícil acesso, e a preocupação em viver em um local onde não fossem atacados pelos brancos era o critério primordial para a escolha de lugares de habitação.

Mesmo assim, eles continuaram sendo “povos da floresta”, sendo possível identificar uma impressionante continuidade das atuais atividades produtivas do grupo em relação às suas antigas práticas culturais. Os Avá Canoeiro do alto Tocantins/Rio Maranhão nunca perderam a prática da agricultura, enquanto os Avá do Araguaia praticaram a agricultura até a década de 30, aproximadamente, com roças em áreas de mata próximas da gruta no sudeste do Pará. Eles mantêm viva uma memória cultural sobre essa prática e têm tentado retomar a agricultura nas aldeias javaé e karajá, mas são escassas as áreas agricultáveis em função das inundações. Em 2019, o Cacique Davi Waiakõ conseguiu plantar feijão, abóbora, milho e melancia na aldeia Canoanã com o apoio da FUNAI regional.

As roças são chamadas okapire e cabia às mulheres plantar em uma área fértil de mata, o lugar ideal. Ainda segundo Roque Laraia, a existência de áreas de mata férteis é um dos principais critérios para a localização de aldeias dos povos tupi, assim como para os Karajá e Javaé. Por outro lado, os Avá-Canoeiro não tinham o costume de queimar os galhos e paus derrubados pelos homens e mulheres na roça, como na prática tradicional da coivara, mantida pelos Javaé e outros povos indígenas. O “plantio” (oiatama) se dá principalmente no “início da chuva” (tinema), enquanto a “colheita” (obaikua) ocorre na “estação seca” (tipate). A colheita dos produtos agrícolas também era uma atividade feminina. As mulheres utilizavam uma grande cabaça, cortada pelos homens, para carregar os produtos da roça. Elas também fabricavam balaios de palha de buriti para ajudar na colheita. Os principais produtos plantados tradicionalmente eram o milho (awatxi), a abóbora (takwega), a mandioca (manioka), a cana de açúcar (takwalea), a melancia (wagatxi), a batata (jeteka), o cará grande (kagawu), o cará pequeno (kaga), a banana (maiapalia), o mamão (bàiawy), cabaça (iakwaga), urucum (uku), algodão (amadijo).


Foto: Tutawa e suas flechas de metal. Aldeia Canoanã, Ilha do Bananal. Jorge Bogéa, 2011
Foto: Tutawa e suas flechas de metal. Aldeia Canoanã, Ilha do Bananal. Jorge Bogéa, 2011

O algodão era usado para a amarração de flechas e, ocasionalmente, para a tecelagem. 'Tutawa' se lembrava de uma rede de algodão feita no passado, embora as redes de palha de buriti fossem mais comuns. O urucum era usado para pinturas corporais pelos homens e mulheres e também para pintar os ossos do morto em uma cerimônia funerária no enterro secundário.


Os Ãwa nunca deixaram de caçar, exercendo até hoje a sua habilidade de exímios caçadores para o sustento diário de seus parentes. Até a década de 90, os Avá-Canoeiro do Araguaia mantiveram o hábito adquirido ainda no Rio Tocantins, desde os primórdios da colonização, de caçar equinos e bovinos domesticados para a alimentação. Em alguns momentos críticos, o abate dos animais domésticos foi a única opção de alimentação para o grupo acuado por todos os lados. Não é verdadeira, no entanto, a informação de que os Avá-Canoeiro viviam prioritariamente de bovinos e equinos antes da captura, alardeada em boletins oficiais da FUNAI da década de 70 e reproduzida por pesquisadores, o que serviu para justificar a necessidade de “atraí-los” e transferi-los da área de fazenda em que viviam.

Embora o grupo do Araguaia tenha tido dificuldades para se alimentar com regularidade e em quantidade suficiente até 2012, quando as famílias começaram a receber um benefício mensal do Governo Federal por ordem judicial, tendo havido casos de desnutrição, a caça foi a principal atividade que sustentou o grupo antes e depois do contato, conforme lembrava o próprio Tutawa. A caça era e ainda é a sua principal fonte de proteínas, sendo tradicionalmente associada à construção da masculinidade e do prestígio pelos Avá-Canoeiro, assim como entre os povos tupi. Os Javaé admiram os Avá pela coragem em suas expedições de caça. O único homem adulto dos Avá-Canoeiro do alto Tocantins até alguns anos atrás continuou praticando a caça, embora em uma região de recursos naturais bem mais escassos.

A grande ligação dos Ãwa com os animais locais ficou evidente tanto pelo conhecimento extraordinário que eles revelaram ter sobre os mesmos, quanto pela manutenção do antigo e conhecido hábito indígena de domesticar e criar filhotes de animais selvagens capturados em expedições de caça ou coleta (conhecidos na literatura antropológica como “xerimbabos”). As mulheres também participavam como caçadoras em alguns rituais. Tradicionalmente, os homens caçavam juntos e distribuíam a carne obtida em porções iguais, entre todos, como ocorre até hoje, hábito comum aos povos tupi.

Para os Avá-Canoeiro, Kagaiwa é também o “dono” (eimawa) dos animais e tem o poder da reprodução dos seres vivos. Os animais moram em casas invisíveis que são vistas apenas pelos xamãs e por Kagaiwa. Ele cuida e alimenta os animais que estão presos em suas casas. Ele só alimenta os animais que ele “cria” nas casas invisíveis. Os animais que os homens caçam e que vivem aqui são os que Kagaiwa coloca para fora de suas casas. Ele é o “dono dos porcos selvagens”, a principal caça para os Avá-Canoeiro, e tem o poder de chamar o porcão, a anta, o pato, o jaburu moleque, o urubu-rei, entre outros. Quando eles atendem ao chamado, ele tira os animais de casa e os deixa soltos. É Kagaiwa quem faz a “mãe” (ave) colocar os ovos e ter os filhotes que depois são criados pelos humanos. Kagaiwa libera os animais em grande quantidade para que eles fiquem andando por muito tempo na terra. Por essa razão, em alguns lugares existem muitos porcões, enquanto em outros há poucos. Ele não interfere na caça dos homens. Os animais que Kagaiwa tira para fora das casas ficam livres e se alimentam por si próprios. Eles duram muito tempo aqui na terra. Os humanos não têm que dar nada em troca a Kagaiwa pelos animais que eles matam para se alimentar. Em suas viagens invisíveis, os xamãs entram nas casas dos animais.

Os animais de caça são chamados de mãimiaga e os mais apreciados são os veados cervo (watxupuku), mateiro (watxu) e catingueiro (agapua), o caititu (taiteto), o quati (kwatxi), o macaco guariba (guarua), o macaco prego (kai), a anta (tapira) e o camaleão (enèmã), mas o “porcão” ou porco queixada (taiau) é o principal. A carne do queixada é considerada a melhor de todas e os Avá-Canoeiro eram grandes caçadores de porcos selvagens. Dos pássaros, os Avá têm preferência pelo mutum (mutum), jaó (inhambuu), jacu (jaku mire), marreco (uiruiru), pato da asa branca (ipeku), juriti (pykaw), rolinha (watxu pykaw), papagaio (kaiakaia), periquito (tuim), jaburu moleque (tujuju), mergulhão ou biguá (biwa), arara azul (agaguna) ou vermelha (agaute), entre outros.

Foto: Iawí com tatu, T.I. Avá-Canoeiro, 2003. Cristhian Teófilo da Silva, 2003.
Foto: Iawí com tatu, T.I. Avá-Canoeiro, 2003. Cristhian Teófilo da Silva, 2003.

Os principais instrumentos de caça – que continuaram sendo fabricados em Canoanã – são tipos de flechas diferentes, adequados a cada tipo de animal. O arco é feito da palmeira patí, utilizada amplamente pelos povos do Brasil Central, enquanto as penas de pássaros, como gaviões e mutuns, são utilizadas na confecção das flechas. As flechas com pontas de metal, que os Avá subtraiam dos brancos antes do contato, são famosas na literatura histórica e eram muito temidas pela população regional. Até hoje essas flechas são fabricadas para a caça:

Flechas fabricadas para a caça
Nome Descrição
Itàju Flecha com ponta de faca para porco selvagem, podendo ser utilizada também para outros animais grandes, como antas, veados, capivaras ou vacas. Antes de colocar a ponta de metal, afia-se o taquari, uma espécie de taboca fina, chamada kamajua.
Ũatxi Flecha fabricada com taquari e um tipo de taboca conhecida como takwarupuu. A parte dianteira da flecha é feita com uma madeira de tucum bem fina e a ponta propriamente dita é de osso de cervo. A flecha é utilizada para matar macaco, pato, quati, entre outros animais.
Wygapiawa Flecha para matar pássaros pequenos, como juriti, jaó ou mutum, acertando na cabeça deles. A flecha é feita de taquari e takwarupuu (um tipo de taboca). A ponta era de uma madeira – na forma de um pilão – encaixada na taboca.
Kamajua Flecha feita apenas de taquari, com a ponta muito afiada, sem nenhum tipo de madeira. Era utilizada para matar animais de grande porte, como cavalo e vaca, pois tinha um grande poder letal.

Os homens utilizavam também um pedaço de madeira, conhecido como emioka, para matar os animais. Pouco tempo depois do contato, os Avá-Canoeiro aprenderam a usar armas de fogo, mas continuaram fabricando seus arcos e flechas. Os cães, que antes acuavam o grupo nas matas a mando dos moradores locais, foram incorporados como animais de caça na aldeia Canoanã. Há vários anos, os Avá-Canoeiro não possuem armas de fogo e se utilizam principalmente das flechas, do emioka e dos cães para as caçadas cotidianas.

As novas gerações aprenderam a pescar peixes e tartarugas nas aldeias dos pescadores javaé e karajá. A mudança do grupo para outro tipo de meio ambiente provocou alterações nas atividades produtivas tradicionais que ainda estão por ser estudadas mais a fundo. No novo meio, em que os recursos pesqueiros são de uma abundância excepcional, quando comparados a outros ecossistemas, a pesca tornou-se uma opção para a subsistência.

Assim como a caça, a coleta de recursos vegetais e animais foi uma atividade de grande importância para os Avá-Canoeiro dos dois grupos antes e depois do contato. Do mesmo modo que a captura de animais, a coleta de frutas e outros recursos ainda é praticada, na medida do possível, com uma periodicidade determinada pelos respectivos ciclos sazonais, embora esteja bastante prejudicada atualmente em função das proibições impostas pelos moradores brancos. Tradicionalmente, a coleta é uma atividade feminina. No médio Araguaia, nos dias de hoje, ela está restrita à retirada de frutas e raízes ou tubérculos selvagens, que os Avá-Canoeiro conhecem bastante e incluem na sua dieta alimentar. Os cocos são igualmente muito apreciados e consumidos, além do mel de abelhas, em especial o mel das abelhas Jataí (jiatei), Arapuá (ewogau) e europeia (kameawa).

Apesar dos desmatamentos realizados pelos atuais ocupantes da Mata Azul, os Avá-Canoeiro ainda coletavam até recentemente a piaçaba (bugòa) na mata, que é preferida para a fabricação de casas, pois a palha dura quase 20 anos. Além da fibra, que também é utilizada ritualmente, os Avá se alimentam do palmito, da castanha e das larvas que proliferam no coco da piaçaba. Atualmente, os Avá-Canoeiro coletam também a palha de babaçu dentro da Ilha do Bananal, no território javaé, cuja qualidade e durabilidade é muito inferior.

A palha de buriti (bytxi) é outro recurso de grande importância para os Avá-Canoeiro, pois é utilizada na fabricação de redes de dormir e dos cestos e balaios tradicionais, de formas e tamanhos diferentes, para abrigar ou carregar frutas, penas ou flechas, por exemplo. A embira é utilizada para amarrações diversas, incluindo as flechas e as madeiras de casas. A resina perfumada da árvore conhecida como amescla (iraity) era e ainda é utilizada como cola para a corda das flechas.

O quadro abaixo apresenta um calendário ecológico-econômico das atividades produtivas contemporâneas dos Avá-Canoeiro do Araguaia, conforme pesquisa da bióloga Luciana Ferraz durante a identificação da Terra Indígena Taego Ãwa, quando foi possível levantar dados sobre um extenso e impressionante conhecimento da fauna local pelos Avá-Canoeiro. Apesar do contexto de opressão institucional em que vivem, os Avá-Canoeiro do alto Tocantins mantiveram a arte da cerâmica e a fabricação de instrumentos musicais.

Foto:Pintura tradicional ãwa. Filme Taego Ãwa. Aldeia Boto Velho. Vinícius Berger, 2015
Foto:Pintura tradicional ãwa. Filme Taego Ãwa. Aldeia Boto Velho. Vinícius Berger, 2015

No Araguaia, Tutawa estimulou seus netos a retomarem a pintura dos corpos ao modo tradicional, com a tinta preta de jenipapo, depois do reconhecimento da Terra Indígena Taego Ãwa pela FUNAI, em 2012, quando a nova geração iniciou uma peregrinação aos centros de decisão em busca da regularização fundiária de sua terra tradicional. O filme Taego Ãwa (2016) exibe uma emocionante cena de pintura corporal dos Ãwa na aldeia Boto Velho, dos Javaé.


Aspectos contemporâneos

O destino após o contato dos dois grupos de sobreviventes do genocídio foi bastante diferente e teve consequências diretas na situação atual dos mesmos. Enquanto o grupo do Araguaia foi relegado à marginalização nas aldeias de antigos adversários, sofrendo privações diversas, o grupo do Rio Tocantins foi submetido ao controle tutelar abusivo pelo PACTO, o Programa Avá-Canoeiro do Tocantins, resultado de um convênio indenizatório entre FUNAI e FURNAS.

A única iniciativa da FUNAI após o contato dos dois grupos foi a tentativa de transferir a família do Araguaia, que morava na Ilha do Bananal (TO), para a longínqua Terra Indígena Avá-Canoeiro (GO), demarcada para os 4 Avá-Canoeiro do Rio Tocantins, pobre em recursos naturais e de características ambientais muito diversas. A tentativa se deu no contexto de construção e funcionamento da hidrelétrica de Serra da Mesa pela empresa FURNAS. A construção foi iniciada na década de 80 em pleno território ãwa, onde ainda circulavam grupos isolados, com sérios e irreversíveis danos socioambientais, embora a barragem tenha inundado parte da terra indígena reconhecida pela FUNAI somente a partir de 1996. A terra indígena foi interditada em 1985, logo depois do contato, em 1983, e demarcada em 1999. O PACTO foi instituído em 1992 e elaborado originalmente por pesquisadores e indigenistas com o objetivo explícito de compensação e proteção dos Avá-Canoeiro do Rio Tocantins.

Foto: Nakwatxia, do grupo do alto Tocantins, desenhando. André Toral, 1985
Foto: Nakwatxia, do grupo do alto Tocantins, desenhando. André Toral, 1985

Como foi demonstrado pelos antropólogos Lena Tosta e Christina Teófilo da Silva, que realizaram análises acadêmicas aprofundadas sobre a relação do programa com os Avá-Canoeiro, o convênio instituiu a dicotomia arbitrária e injustificável entre os “aculturados” do Araguaia e os “exóticos” ou “tradicionais” do Rio Tocantins, o que justificou o abandono completo dos primeiros pelo Estado e a interferência excessiva dos agentes da parceria público-privada entre os últimos. Com o tempo, o convênio deu origem a um rigor institucional fora do comum, por diversas razões e com diversos objetivos, que acabou favorecendo muito mais aos interesses das empresas envolvidas do que os dos índios. Além disso, conforme funcionários da própria FUNAI denunciaram, FURNAS degradou a terra indígena, mas só cumpriu algumas das metas do acordo, que previa amplas medidas compensatórias, enquanto elas eram necessárias para não prejudicar o andamento das obras. O convênio milionário foi renovado em 2012, garantindo vultosos recursos financeiros anuais ao programa, os quais, no entanto, não têm beneficiado os Avá-Canoeiro como previsto. A terra indígena encontra-se invadida por madeireiros, garimpeiros, fazendeiros, pescadores etc e os relatos dos poucos que conseguem visitá-los são de grande precariedade quanto à alimentação, moradia, saúde e educação.

O modo como a “proteção” tem sido conduzida há três décadas, incentivando o isolamento dos sobreviventes, terminou por alienar e infantilizar os índios do Rio Tocantins, que durante muitos anos não foram minimamente informados sobre os objetivos do programa em andamento, o contexto que os envolvia e os seus direitos nessa dívida do Estado. Em 1999, no documentário “Fragmentos de um povo”, de Adrien Cowell, uma das operadoras do convênio defende que o menino nascido depois do contato, então já com 9 anos de idade, não poderia frequentar a escola porque teria que entender “a cultura deles” primeiro, de modo que ele e sua irmã foram privados do ensino escolar formal por muitos anos, como é descrito pelo antropólogo Christian Teófilo da Silva. Até agora, já adultos, o menino e a menina da primeira geração nascida após o contato não tiveram direito ao ensino de matemática, por exemplo, o que suscita suspeitas de graves manipulações.

Foto: André Toral, 1982
Foto: André Toral, 1982

O resultado do convênio inicial foi um controle crescente do acesso de estranhos ao grupo e da própria vida social dos Avá-Canoeiro do Rio Tocantins, incluindo minúcias da sua vida privada, como hábitos de higiene, entre outros, em contraste gritante com a negligência em relação aos Avá do Araguaia e a outros grupos indígenas. Dentro desse contexto opressivo e autoritário, apontado por vários pesquisadores, a indenização e a suposta proteção da tutela oficial, exercida em parceira com um grande empreendimento, adquiriram um caráter de dominação, instituindo uma dependência econômica quase absoluta dos índios em relação ao PACTO e uma atitude civilizadora e disciplinadora dos hábitos cotidianos dos Avá-Canoeiro. Estes últimos foram privados de decidir sobre as questões mais básicas da sua existência, como a escolha de parceiros para o casamento ou o modo de se criar os filhos que nasceram depois do contato, entre outros exemplos análogos. Depois do contato, houve um casamento entre as duas crianças contatadas, de famílias diferentes, que tiveram dois filhos. Teófilo da Silva descreve como a interferência do programa na relação dos pais com a primeira criança que nasceu levou a uma rejeição da mesma pelo grupo, causando danos psicológicos visíveis.

O convênio milionário, que depende da reprodução dos Avá-Canoeiro do Tocantins para continuar existindo, instituiu como metas principais a atração dos “isolados” do Tocantins e a reunificação dos dois grupos por meio da transferência da família do Araguaia para a terra do Rio Tocantins. A Frente de Atração do alto Tocantins foi mantida até 2000, mesmo depois que a própria FUNAI reviu no país inteiro a desastrosa política do contato compulsório, abandonando essa prática no fim dos anos 80. Com a obsessão pela transferência, a FUNAI ignorou completamente as notícias e vestígios recorrentes sobre os “isolados” do Araguaia, na Ilha do Bananal.

A tentativa de reunificação foi colocada em prática em 1989 e foi levada a cabo por cerca de 25 anos, a custa de abusos e violências diversas que foram denunciados por pesquisadores em trabalhos acadêmicos ou relatórios oficiais, mas que ainda não tiveram a devida investigação por parte do poder público. Ela foi feita contra a vontade dos dois grupos, que não reconheciam nenhum vínculo de parentesco ou histórico depois de mais de 150 anos de separação.

Partindo de um suposto parentesco biológico original e baseado em teorias sociais ultrapassadas, o programa supunha equivocadamente que a continuidade de uma sociedade ou etnia se baseia na pureza biológica ou cultural de seus integrantes, de modo que os filhos dos Avá-Canoeiro do Araguaia com pessoas de outras etnias eram descritos como “mestiços” e “aculturados”. O programa insistiu no casamento forçado entre pessoas do Araguaia com pessoas do Tocantins, promovendo intercâmbios e chegando a proibir que os Avá-Canoeiro se casassem com pessoas da sua escolha pessoal. Esse processo de desumanização dos dois grupos, em que os índios foram tratados como animais em cativeiro em um processo de reprodução assistida, foi baseado em uma ideologia de fundo racista, e não teve sucesso diante da resistência inabalável do grande líder Tutawa, que recusou terminantemente, por décadas, a proposta de transferência do grupo do Araguaia, em razão dos profundos vínculos históricos, culturais, socioeconômicos e espirituais que sua família mantém com a região.

Depois de frustradas as tentativas de casamento com pessoas da família do Araguaia, o PACTO concretizou um casamento arranjado entre um homem tapirapé bem mais velho, povo com proximidade linguística dos Avá-Canoeiro, e a menina do alto Tocantins, ainda menor de idade, que nasceu após o contato. Desse casamento problemático, com recentes denúncias de violência doméstica, nasceram três crianças.

Contrariando totalmente os pressupostos dos operadores do projeto, foram justamente os Avá-Canoeiro do Araguaia, abandonados pelo Estado à própria sorte na aldeia de seus antigos inimigos, que conseguiram se reproduzir física e culturalmente por meio de casamentos interétnicos estigmatizados, os quais foram apropriados pelo grupo a partir de sua própria lógica cultural. Apesar do contexto de forte discriminação, os descendentes do grupo contatado auto identificam-se como Ãwa ou são reconhecidos pelo grupo e pela comunidade local como Avá-Canoeiro. Ao que tudo indica, o sentimento das novas gerações multilíngues de pertencimento ao povo Ãwa foi fortalecido no contexto de marginalização.

Nada aniquilou ou domesticou a vitalidade resiliente dos sobreviventes ãwa, que seguiram adiante contando essencialmente com a sabedoria herdada de seus ancestrais, o vínculo amoroso entre eles e uma narrativa profética que prevê o retorno ao seu território de origem. As crianças que sobreviveram à captura e as que foram nascendo depois foram protegidas e cuidadas pelo pajé Tutawa com afeto e dedicação exemplares, a quem ensinou a língua, práticas rituais e batizou com os nomes-alma dos antepassados, conforme a tradição ãwa, mantendo uma das mais importantes formas de continuidade do legado tupi-guarani. Na intimidade do grupo, Tutawa manteve a altivez e sempre deixou claro às crianças que eles eram de outro povo, digno, e que estavam temporariamente no exílio, em uma terra que não era a deles. A força interna cultivada em séculos de resistência permitiu aos Avá-Canoeiro se reproduzirem nas novas circunstâncias tão desfavoráveis.

A partir de 2009, tiveram início as pesquisas antropológicas e ambientais que resultaram na identificação oficial das terras indígenas Javaé/Avá-Canoeiro e Taego Ãwa, principalmente. Foi então possível trazer a público, pela primeira vez, a memória ãwa sobre a história do Araguaia, contribuindo com a verdade para processos de reparação e justiça. Esse exercício penoso e ao mesmo tempo catártico dos Avá de acesso a um passado traumático contribuiu decisivamente para evidenciar a tradicionalidade inquestionável da ocupação avá-canoeiro na região, humanizar sua imagem e desconstruir a falsa narrativa, porém hegemônica, da “aculturação” e “extinção” do grupo, que minava até certo ponto a autoestima das novas gerações.

Foto: Kupere, filho de Kaukamy. Filme Taego Ãwa, aldeia Boto Velho. Belem de Oliveira, 2014
Foto: Kupere, filho de Kaukamy. Filme Taego Ãwa, aldeia Boto Velho. Belem de Oliveira, 2014

A perspectiva de uma terra própria, onde o grupo possa se reunir como comunidade autônoma, deslanchou entre os jovens um processo político de afirmação étnica e envolvimento crescente com o movimento indígena local e nacional, com o apoio do CIMI e outros apoiadores, e de busca por direitos invisibilizados por décadas, principalmente os direitos territoriais. Como resultado desse processo, o Ministério Público Federal (TO) ajuizou uma Ação Civil Pública contra a FUNAI e a União em 2012, pedindo uma indenização por danos morais e materiais em favor dos Avá-Canoeiro, o que já teve resultados favoráveis.

Os Avá do Araguaia deram um depoimento oficial à Comissão de Anistia em 2011 e a sua história de violência foi incluída no Relatório da Comissão Nacional da Verdade em 2014 como um caso emblemático.

Uma jovem do grupo do Araguaia agora estuda Pedagogia na Universidade Federal do Tocantins e ocupa um lugar estratégico para os Ãwa frequentando a universidade e morando na cidade, onde realiza contatos com os órgãos públicos que lidam com a população indígena.

Em 2016, a Terra Indígena Taego Ãwa foi declarada como de posse permanente pelo Ministério da Justiça no dia do impeachment da Presidenta Dilma Roussef, mesmo ano de lançamento do premiado filme Taego Ãwa, dos irmãos Borela, que foi construído conjuntamente com os Avá-Canoeiro do Araguaia.

A pedido dos Ãwa, o MPF (TO) ajuizou nova ação pela demarcação da terra em 2018, obtendo uma decisão favorável da Justiça Federal no mesmo ano. O levantamento fundiário de Taego Ãwa sobre os ocupantes não indígenas da área, iniciado em 2019 por ordem judicial, foi um dos dois únicos realizados pela FUNAI no Brasil.

Foto: Cena do filme Taego Ãwa. Capão de Areia,Vinícius Berger, 2015
Foto: Cena do filme Taego Ãwa. Capão de Areia,Vinícius Berger, 2015

O grupo conseguiu finalizar a retificação de seus nomes nos documentos oficiais em 2019, depois de uma oficina realizada com a Profa. Mônica Veloso (UFG) em 2013, e criou a associação indígena APÃWA.

Em julho de 2019, durante um encontro promovido pelo PACTO entre os dois grupos na Terra Indígena Avá-Canoeiro (GO), depois de mais de 10 anos do último, os Ãwa do Rio Tocantins pediram socorro aos Ãwa do Araguaia na própria língua, com quem criaram laços afetivos há muitos anos, ao que foram correspondidos com promessas de uma aliança solidária.

Os Avá-Canoeiro “isolados”

Na época do contato forçado dos Avá-Canoeiro do Araguaia (1973) e do contato efetuado pelo grupo do alto Tocantins (1983), havia outros pequenos grupos ãwa nessas regiões, vivendo nas mesmas condições dramáticas de fuga experimentadas por seus parentes contatados. Em se tratando dos Avá-Canoeiro, o termo “isolados”, utilizado pelo órgão indigenista, soa como um eufemismo que pode supor uma opção voluntária por uma vida autônoma, quando se trata de grupos de “refugiados” de circunstâncias históricas de grande violência, os quais não tiveram outra opção a não ser fugir do contato.

No alto Tocantins/Rio Maranhão, a Frente de Atração ativada em 1971 continuou atuando até o ano de 2000, quando foi desmembrada entre uma equipe no Rio Tocantins e outra nos rios Preto e Paranã, em uma região invadida por madeireiros e garimpeiros. Em 1998, o antropólogo André Toral, que chefiou a Frente de Atração em 1985 e propôs na época a interdição oficial de uma área, estimou os possíveis “isolados” do Araguaia e Tocantins em 25 pessoas. A historiadora Dulce Pedroso, por sua vez, levantou dados sobre a existência de quatro pequenos grupos familiares ainda autônomos na região do alto Tocantins e em movimento de dispersão para regiões mais distantes até os anos 90. Um desses grupos chegou a atingir os municípios de Unaí, Buritis e Arinos em Minas Gerais, na década de 80.

Na região do médio Araguaia, o sertanista Israel Praxedes informou em seus relatórios de 1972 à FUNAI que os Avá-Canoeiro movimentavam-se por toda a vasta região entre os rios Formoso do Araguaia e Javaés, em uma área estimada em mais de 50.000 alqueires, com mais de 300 km de comprimento, onde eram vistos à distância por sertanejos e vaqueiros. A equipe de Praxedes encontrou um acampamento abandonado com vestígios da presença de mais de 30 pessoas, embora apenas 11 tenham sido encontradas pela equipe de Apoena Meirelles pouco depois.

Na década de 80, o antropólogo André Toral mencionava a existência de grupos “isolados” na região da Mata do Mamão, na porção centro-norte da Ilha do Bananal, atual Terra Indígena Inãwébohona (sobreposta pelo Parque Nacional do Araguaia), sugerindo, no entanto, que a demarcação de uma terra para os Avá contatados fosse condicionada à atração prévia desses “isolados”.

A existência de pelo menos um grupo de Avá-canoeiro sem contato na região, cujos vestígios são encontrados com frequência, como pegadas, restos de alimentos e até moradias, é comentada há anos por vaqueiros, posseiros e pelos próprios Javaé, principalmente por aqueles que moram mais próximos da Mata do Mamão. O antigo cacique da aldeia Wakòtyna, próxima à Mata do Mamão, já fez comunicados por escrito à FUNAI sobre a presença dos “Cara Preta” nas imediações da aldeia na estação seca. Equipes regionais do CIMI já realizaram expedições em busca de vestígios do grupo da Mata do Mamão nos últimos anos e têm obtido informações dos Kraho-Kanela sobre a movimentação desses índios para fora da Ilha do Bananal na estação seca.

Há informações também sobre a existência de pelo menos outro grupo mais ao sul, na Terra Indígena Parque do Araguaia, conforme relatos feitos pelos Javaé ao Grupo Técnico de Identificação e Delimitação das terras indígenas Javaé/Avá-Canoeiro e Taego Ãwa. Na estação seca, os índios atravessariam o Rio Javaés para se dirigir a um lago e uma mata fora da Ilha do Bananal, onde os Javaé tiveram a oportunidade de trocar alguns objetos com eles. Antes do contato forçado, essa era uma área de movimentação dos Avá-Canoeiro do Araguaia.

Em 2016, após o relato de uma equipe do IBAMA, de que teria visto alguns índios na Mata do Mamão, a FUNAI de Brasília tentou iniciar uma investigação sobre o grupo, mas não obteve resultados concretos devido às dificuldades encontradas diante da falta de familiaridade da equipe com a região. Em 2017, um Javaé da aldeia Canoanã denunciou ao Ministério Público Federal por escrito que teria ouvido comentários de um vaqueiro sobre o assassinato de alguns desses Avá-canoeiro da Mata do Mamão, mas não foi possível levar a investigação à frente.

Durante a pesquisa realizada entre 2009 e 2011 com os Avá-Canoeiro do Araguaia para a identificação das terras indígenas Javaé/Avá-Canoeiro e Taego Ãwa, o Grupo Técnico da FUNAI tomou conhecimento de que os Avá tinham profundo trauma da forma como o contato havia sido realizado na década de 70. Diante dos questionamentos a respeito do possível grupo “isolado”, os remanescentes do contato demostraram grande preocupação em evitar que fosse feito novo contato forçado.

Mesmo com relatos de diversas fontes sobre a presença desse possível grupo de refugiados na Ilha do Bananal, a FUNAI não tomou nenhuma providência efetiva até agora, além da única expedição infrutífera de 2016. Desde a década de 80, a prioridade absoluta do órgão, por meio do Programa Avá-Canoeiro do Tocantins (PACTO, 1992, 2004), resultado do convênio FUNAI/FURNAS, foi a transferência do grupo do Araguaia para a Terra Indígena Avá-Canoeiro (GO), onde vivem os Avá-Canoeiro do Rio Tocantins. O PACTO patrocinou sem sucesso não só a transferência, tentada contra a vontade dos dois grupos, como expedições de busca dos “isolados” da região do Rio Tocantins, sobre os quais também havia relatos, enquanto os “isolados” do Araguaia foram totalmente negligenciados pelo órgão indigenista. Essa insistência na transferência, registrada por pesquisadores, foi abrandada somente com a declaração de posse permanente pelo Ministério da Justiça da Terra Indígena Taego Ãwa (TO) em 2016, de interesse do grupo do Araguaia. As metas do PACTO levaram a uma invisibilização completa da situação de grande vulnerabilidade dos índios sem contato da Ilha do Bananal, ameaçados pela presença cada vez mais próxima de criadores de gado na sua zona de refúgio.

No dia 7.10.2019, um grupo de 8 índios refugiados e em pânico, provavelmente do povo Avá-Canoeiro, foi avistado em uma clareira da Mata do Mamão por uma equipe do PREV-fogo/IBAMA durante um sobrevoo em helicóptero de combate ao grande incêndio que se alastrou na Ilha do Bananal. O incêndio se deu no mesmo contexto das queimadas que se propagaram em 2019 na Amazônia, com índices muito acima da média histórica, e se relaciona indubitavelmente à ocupação da Ilha do Bananal por criadores de gado. No período entre janeiro e agosto de 2019, segundo o INPE, foi registrada a presença de impressionantes 1.256 focos de queimadas apenas na Terra Indígena Parque do Araguaia, que abriga parte da Mata do Mamão e outras áreas de mata que seriam possíveis refúgios dos “isolados”. Segundo o levantamento feito, trata-se do maior número de focos de queimadas no período referido em terras indígenas do Brasil.

Cerca de 80% da Mata do Mamão foi destruída pelo fogo, o que reduziu drasticamente os locais de refúgio do grupo em uma área de savanas inundáveis. Segundo a FUNAI, em setembro de 2019 foram queimados 276.720 ha do Parque Nacional do Araguaia, que tem uma área total de 555.524 ha. Ou seja, cerca de metade de todo o parque, que se sobrepõe às terras indígenas Inãwébohona e Utaria Wyhyna, foi devastada pelo incêndio de grandes proporções e que levou muitos dias para ser contido. O MPF de Tocantins ajuizou uma Ação Civil Pública contra a União pouco tempo depois e a Justiça Federal determinou que os órgãos indigenista e ambientais tomassem providências urgentes a respeito dos índios “isolados”.

A vulnerabilidade dos índios “isolados” da Ilha do Bananal agravou-se consideravelmente em 2019, pois, com a redução drástica da grande mata que servia de refúgio, eles podem estar se refugiando em outras áreas menores de mata seca da Ilha do Bananal, constituída de savanas inundáveis, como seus parentes faziam antes do contato. Atualmente, esses índios estão gravemente ameaçados pela presença próxima de elevado número de criadores de gado na Ilha do Bananal e pelo projeto de construção de uma estrada de altíssimo impacto socioambiental. Em 2019, foram vacinados oficialmente 116.796 bovinos na Ilha do Bananal, sob controle de 344 “retiros”, habitações rústicas de posseiros ou vaqueiros enviados por fazendeiros de fora da ilha, na estação seca, em função de suas ricas pastagens naturais. A presença de criadores e do gado em larga escala traz grande prejuízo socioambiental a todos os povos indígenas da Ilha do Bananal, pois prejudica a reprodução da ictiofauna e interfere negativamente na qualidade dos recursos ambientais e nas condições do ecossistema que sustenta as atividades produtivas e culturais das comunidades da região.

No momento está em andamento um projeto dos governos de Mato Grosso e Tocantins, apoiado pelo agronegócio e pelo Governo Federal, de construção da Rodovia TO-500 ou Transbananal, aterro elevado que cortará áreas inundáveis da Terra Indígena Parque do Araguaia, interligando um eixo internacional de exportação da produção agropecuária do Centro-Oeste. A rota prevista da estrada passará a menos de 80 km da Mata do Mamão, atingindo em cheio as outras possíveis zonas de refúgio dos “isolados”.

Tanto no caso da invasão de gado como da construção da estrada, não está sendo levado em consideração pelas autoridades responsáveis o fato de que a Ilha do Bananal, com seus 2 milhões de hectares, é protegida pela União, por estar dividida em 3 terras indígenas (T.I. Terra Parque do Araguaia, T.I. Inãwébohona, T.I. Utaria Wyhyna) e uma unidade de conservação (Parque Nacional do Araguaia) desde 1959; e por uma convenção internacional ratificada pelo Brasil em 1996, a Convenção de Ramsar, relativa às Zonas Úmidas de Importância Internacional. Ao Estado brasileiro cabe garantir imediatamente a integridade física dos Avá-Canoeiro refugiados, evitando-se a continuidade do seu genocídio histórico, por meio do direito ao “isolamento voluntário”, uma vez que não há nenhuma possibilidade concreta a médio prazo de uma vida digna para esse povo fora da Ilha do Bananal, tendo em vista que seus parentes contatados em 1973 vivem até hoje em situação de grave marginalização.


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      Filmes
    • Avá-Canoeiro: a teia de um povo invisível, de Mara Moreira, 1998, Brasil, 70 min.
    • Fragmentos de um povo, de Adrien Cowell, 1999, Brasil, 52 min.
    • Taego Ãwa, de Henrique Borela e Marcela Borela, 2016, Brasil, 75 min.