De Povos Indígenas no Brasil
Foto: Rieli Franciscato

Korubo

Autodenominação
Onde estão Quantos são
AM 34 (Siasi/Sesai, 2014)
Família linguística
Pano

Os Korubo, também chamados “caceteiros” devido à fabricação e ao uso de diferentes tipos de borduna, ocupam um território ancestral na sub-bacia hidrográfica do rio Itaquaí, um afluente do baixo rio Javari, fronteira natural entre Brasil e Peru. Atualmente dentro dos limites da Terra Indígena Vale do Javari, no estado do Amazonas. Após tentativas iniciais não exitosas, a Fundação Nacional do Índio os contatou em diferentes momentos, começando em 1996 e, posteriormente, em 2014, 2015 e 2019. Hoje grande parte dos Korubo é considerada pelo órgão indigenista oficial como de “recente contato” – quatro aldeias localizadas no baixo curso do rio Ituí e um subgrupo no rio Coari –, enquanto outra parcela permanece em “isolamento”.

Nome e língua

A autodenominação dos chamados Korubo foi motivo de controvérsias ao longo dos anos e, caso exista, ainda é desconhecida. Os Korubo que habitavam a confluência dos rios Ituí e Itaquaí já chegaram a ser denominados pela Fundação Nacional do Índio (FUNAI) de “Marubões”, pois acreditava-se que eram um subgrupo marubo. Em 1975, conjecturou-se que a autodenominação dos Korubo era kaniwa – hoje sabe-se que este é um termo de parentesco utilizado por povos da família linguística Pano. Por fim, chegou-se ao consenso de que os chamados Korubo eram os “índios da confluência [Ituí-Itaquaí]” (Melatti, 1981).

“Korubo” é um etnônimo. Na língua matis, a raiz -koru remete a “cinza”, “barro” ou “pó” – alusão ao ato de passar essas substâncias na pele para afugentar insetos dípteros –, e o sufixo -bo é um coletivizador. Há ainda a hipótese de que esse etnônimo era utilizado já no século XVIII por povos Pano, do subconjunto setentrional, em referência a seus inimigos (Arisi, 2007; Erikson, 1996). Além do pronome “nós” (nukmi), os Korubo passaram a adotar esse etnônimo nas relações com os não-indígenas (nawa, latkute) e outros povos indígenas (tëtum wëtsi).

A língua korubo – junto às línguas matis, matsés e kulina-pano – pertence ao ramo setentrional, “grupo do Norte”, da família linguística Pano (Oliveira, 2009; Fleck, 2013). Os povos Pano, uma das principais famílias linguísticas da Amazônia, caracterizam-se pela uniformidade territorial, cultural e linguística, e valorizam a intercompreensão mútua, enfatizando as similaridades entre suas línguas. Os Korubo não são exceção à essa regra. Conhecem e adotam termos linguísticos de povos Pano vizinhos, como os Matis, os Matsés e os Marubo, chegando a se comunicar nessas línguas. Os empréstimos linguísticos circulam cotidianamente junto à língua korubo.

A maioria do primeiro subgrupo korubo contatado pela FUNAI possui algum entendimento da oralidade em língua portuguesa e iniciação à escrita em língua korubo em virtude das esporádicas oficinas de letramento e numeração, apoiadas pela Frente de Proteção Etnoambiental Vale do Javari (FPEVJ/FUNAI) desde 2007, e dos contatos permanentes com agentes institucionais da FUNAI e da Secretaria Especial de Saúde Indígena (SESAI). No cotidiano das aldeias korubo no rio Ituí esse conhecimento se estende do subgrupo contatado em 1996 aos contatados em 2014 e 2015. Esse cenário difere no caso dos recém-contatados em 2019, localizados no rio Coari.

Localização

Ao longo do século XX, os Korubo ocuparam um território que vai da confluência dos rios Ituí e Itaquaí, como limite setentrional, ao divisor de águas dos rios Coari e Branco, como limite meridional, no interior da atual Terra Indígena (TI) Vale do Javari, no estado do Amazonas.

O término do processo de regularização fundiária da TI Vale do Javari, com decreto de homologação e registro na Secretaria do Patrimônio da União e nos Cartórios de Registros de Imóveis, onde ela incide, data de 02 de maio de 2001. Com a extensão de 8,5 milhões de hectares, a TI foi demarcada e homologada em meio a uma série de manifestações contrárias e campanhas favoráveis à demarcação, realizadas desde meados da década de 1980, com a adução dos conflitos envolvendo os isolados korubo.

A área da TI Vale do Javari incide em quatro municípios do estado do Amazonas, localizada na porção sudoeste. Trata-se de um território compartilhado por cinco povos da família linguística Pano – Matis, Matsés, Marubo, Kulina-pano e Korubo – e dois povos da família linguística Katukina: Kanamari e Tsohom-dyapa. Uma parcela dos Korubo e os Tsohom-dyapa são considerados pela FUNAI como povos indígenas de recente contato. Além desses sete povos, a TI Vale do Javari abriga uma das maiores concentrações de povos indígenas isolados. Segundo o censo do Distrito Sanitário Especial Indígena Vale do Javari, em 2020, a população da TI Vale do Javari era 6.317 habitantes.

A FUNAI atua na região com quatro Bases de Proteção Etnoambiental (BAPE), localizadas nos rios Curuçá, Jandiatuba, Quixito e na confluência dos rios Ituí e Itaquaí – esta última próxima das quatro comunidades korubo de recente contato no rio Ituí – e o DSEI Vale do Javari, da SESAI, abrange dezessete micro-áreas com oito pólos-base.

Histórico do contato

A região do Vale do Javari é historicamente marcada por diferentes frentes de exploração, com a utilização de mão-de-obra indígena, resultando em inúmeros conflitos e mortes. No século XIX iniciou-se o ciclo da borracha, que passou por uma queda na produção no início do século XX devido à concorrência da produção no Oriente, e retomou o auge em 1932, crescendo ao longo dos anos 1940, após a Segunda Guerra Mundial. Esse período de extração da borracha foi marcado por ocupações desordenadas e “correrias” feitas por seringueiros e caucheiros para raptos de pessoas com finalidades diversas.

À exploração da borracha sobrepôs-se a exploração da madeira com modus operandi e mão-de-obra semelhantes. Os conflitos entre os indígenas e os madeireiros abriram espaço para a intervenção do exército na região em favor dos extrativistas. Com a extração de madeira, tornava-se cada vez mais difícil aos indígenas se refugiarem em terra firme. Esse período caracteriza-se pela extinção de diversos grupos indígenas e depopulação dos remanescentes. Nesse contexto, a área dos Korubo estava repleta de não-indígenas. Isso resultou, por um lado, em inúmeros conflitos e mortes e, por outro, na modificação das áreas de perambulação desses isolados.

As experiências de contato

Há registros de contatos esporádicos com os Korubo desde 1920. Um levantamento dos conflitos no Vale do Javari (1996), realizado pelo antigo Departamento de Índios Isolados/FUNAI, registrou a morte de cerca de quarenta korubo, em 1928, por peruanos acompanhados de indígenas “Tukúna”. Em 1971 a FUNAI iniciou seus trabalhos na região em apoio à abertura da Rodovia Perimetral Norte, do Plano de Integração Nacional, com a instalação da “Base Avançada de Fronteira do Solimões” em Atalaia do Norte, Amazonas, e cinco Frentes de Atração no interior do Vale do Javari, que prestaram assistência aos grupos indígenas contatados e, posteriormente, transformaram-se em Postos Indígenas.

Índios Korubo na década de 70, rio Itaquaí, Terra Indígena Vale do Javari, Amazonas. Sem crédtio
Índios Korubo na década de 70, rio Itaquaí, Terra Indígena Vale do Javari, Amazonas. Sem crédtio

Em 1972 criou-se o Posto Indígena de Atração (PIA) Marubo na margem direita do rio Itaquaí, acima do igarapé Marubo. A equipe, chefiada por Sebastião Amâncio da Costa, objetivava estabelecer contato pacífico com os Korubo – até então a FUNAI acreditava que eles eram um subgrupo marubo. Um ano depois, quando já estabelecidos alguns contatos, os isolados korubo atacaram o PIA, matando a família do servidor Moisés. Ainda no mesmo ano, ocorreu um segundo ataque. Dessa vez, os isolados mataram o servidor Sebastião Bandeira e feriram o servidor Bernardo Muller.

Após os incidentes, o PIA Marubo foi transferido para a margem oposta, abaixo da confluência dos rios Itaquaí e Branco, e passou à chefia de Valmir Torres. Em novembro de 1974 a equipe do PIA contatou um subgrupo de isolados korubo e no mês seguinte, através de sobrevoos, localizou malocas na margem esquerda do rio Ituí. Em 1975 os isolados visitaram o PIA e pediram ferramentas de metal. Posteriormente atacaram o PIA e mataram o servidor Jaime Sena Pimentel. Esse falecimento gerou controvérsias acerca de uma possível retaliação por parte do órgão indigenista aos Korubo (Valente, 2017). Após esses incidentes e falhas na aproximação pacífica, o PIA Marubo foi desativado.

As tentativas de aproximação com os Korubo foram retomadas em 1982 com o PIA Itaquaí, sob a chefia do sertanista Pedro Coelho, e um acampamento na localidade Jó. Os isolados recolheram presentes deixados pela equipe no PIA. Dias depois, com o auxílio do intérprete Binan Tucun Matis, a equipe comunicou-se com os isolados nas margens do rio Itaquaí. No dia seguinte eles reapareceram pintados de urucum e desarmados. Um mês depois, a equipe, à distância num barco, com a tradução de Binan Tucun Matis, estabeleceu a terceira comunicação que durou cinco horas. Os isolados aproximaram-se nadando para conversar. Nessa ocasião verificou-se que um deles adoecera, possivelmente de malária. No dia seguinte eles voltaram em busca de mais presentes, mas não havia material no PIA.

Os Korubo reapareceram debilitados e mais magros no mês de julho. Nessa ocasião comunicaram-se à distância durante quatro horas. Retornaram ao local no dia seguinte, nadaram até à embarcação e foram medicados pelos funcionários do PIA. Os isolados relataram a Binan Matis que seus parentes adoeceram na maloca. Após esses contatos amistosos, eles atacaram novamente, matando os servidores Amélio Wadik Chapiwa e José Pacifico de Almeida. O PIA Itaquaí transformou-se então em Posto de Vigilância, sem muito êxito quanto à fiscalização da entrada de invasores no território dos isolados.

As mortes ocorridas refletem os ataques e a depopulação sofrida pelos Korubo. Registros apontam uma mudança na atitude deles em relação aos não-indígenas diante das ofensivas frentes de expansão. Em viagem realizada no âmbito do “Projeto de Prevenção e Combate à Cólera nas Comunidades Indígenas do Rio Javari” nos anos 1990, uma comunidade ribeirinha no rio Ituí, localizada na região do seringal Aliança, informou que os “Kurubo” anteriormente “viviam na margem oposta à da comunidade sem nunca tê-los molestado” (Selau, 1991).

A escassez de registros dificulta dimensionarmos o número de óbitos entre os isolados. Segundo o levantamento de conflitos, realizado pelo Departamento de Índios Isolados/FUNAI, indígenas a serviço do patrão Flávio Azevedo, na extração de seringa, dispararam contra isolados korubo no rio Itaquaí em 1979. Em 1981, o mesmo patrão, com ajuda de Manoel Vicente e João Bezerra, distribuiu farinha envenenada aos Korubo.

Em 1984 os Korubo atacaram outro servidor da FUNAI e um funcionário da Companhia Brasileira de Geofísica (CBG), subsidiária da Petrobrás, que realizava pesquisas sísmicas para prospecção de combustíveis fósseis na região desde 1983. No dia 04 de setembro de 1984, Lindolfo Nobre Filho da FUNAI e João Praia Costa da CBG foram mortos a golpes de bordunas por cerca de cinquenta korubo no acampamento da Petrobrás.

Ao perceberem a presença dos isolados nas proximidades, aproximaram-se para contatá-los levando objetos industrializados como presentes. Os isolados chegaram a dar as mãos e a dançar com os dois funcionários. Minutos depois os atacaram com golpes de bordunas. Mais de cem funcionários da Petrobrás assistiram ao episódio. Dois dias depois a CBG e a FUNAI retiraram os funcionários do local (Labiak; Neves, 1984). No ano seguinte, em 1985, um kanamari encontrou o cadáver de um korubo no rio Itaquaí.

Em setembro de 1989 três isolados korubo foram caçados e assassinados por um grupo de quinze homens não-indígenas no lago Gamboá. No dia anterior, quatro deles foram vistos próximos da residência de um seringueiro. Os moradores, assustados, decidiram se reunir e planejar o ataque. Uma Comissão de Sindicância, composta pela FUNAI e Polícia Federal, acompanhou a exumação dos corpos, a conclusão e o encaminhamento do inquérito para o Ministério Público Federal. Esse é um dos poucos registros existentes dos ataques aos isolados korubo.

Em 1990, incidentes envolvendo os Korubo resultaram na morte de dois não-indígenas. Expedições punitivas aos isolados, operadas por políticos e empresários locais, foram denunciadas pela Administração Regional da FUNAI em Atalaia do Norte, Amazonas. As atividades de aproximação com os isolados foram então retomadas. No contexto dessa série de embates, a FUNAI com a Portaria nº003/PRES, em janeiro de 1996, criou a Frente de Contato para atração dos Korubo. Meses depois o objetivo foi alcançado.

Os contatos oficiais com a Fundação Nacional do Índio

Sidney Possuelo e um guia matis que serviu de intérprete no primeiro contato pacífico com os Korubo. Foto: Ricardo Beliel, 1996
Sidney Possuelo e um guia matis que serviu de intérprete no primeiro contato pacífico com os Korubo. Foto: Ricardo Beliel, 1996

Os primeiros avanços no primeiro contato oficial e pacífico com os Korubo começaram com a localização de uma maloca em agosto de 1996. A equipe, chefiada pelo sertanista Sidney Possuelo, possuía duas embarcações: uma para Posto de Fiscalização; outra como ponto de apoio nas incursões de vistoria ao tapiri da atração, localizado na beira do rio Ituí, próximo ao caminho que levava à maloca. No final do mês de agosto, os isolados trocaram presentes deixados pela equipe no tapiri. Em 15 de outubro de 1996, a equipe contatou dezoito pessoas: quatro mulheres, seis homens, seis meninos e duas meninas. Essa expedição foi gravada e transmitida pela National Geographic.

Após dez meses de trabalho, cerca de trinta visitas ao subgrupo recém-contatado, os Korubo atacaram o servidor Raimundo Batista Magalhães, conhecido como Sobral. O incidente foi alvo de controvérsias, dentre elas a hipótese de que o ataque aconteceu porque Sobral recolhera uma lona que servia como estrutura de um tapiri e que havia sido emprestada aos Korubo. À lona, somaram-se ainda micro episódios que supostamente teriam irritado os Korubo paulatinamente: a retomada de um machado das mãos de um korubo ou a sovinice de uma panela.

Do ponto de vista de alguns servidores da FUNAI, a morte de Sobral foi resultado de uma série de quebras de protocolos de segurança registrados em Memorando, como a manutenção da superioridade ou equivalência numérica nas interações com os Korubo e a proibição de ir à margem oposta em casos de aparecimentos dos Korubo. Do ponto de vista dos Korubo, o incidente estava relacionado aos sucessivos decessos em sua população.

Dias após a morte de Sobral, os Korubo reapareceram acima do igarapé Quebrado, margem esquerda do rio Ituí. Através dos intérpretes matis, comunicaram-se à distância para pedir comida, entre outras coisas. A equipe não se aproximou da margem. Em novembro de 1998 cinco homens, duas mulheres e duas crianças korubo apareceram na localidade Ladário, próxima da confluência dos rios Ituí e Itaquaí, em busca de farinha e panela. Não houve ataque, mas os moradores da comunidade, amedrontados, pediram a ajuda da FUNAI e propuseram à administração do órgão em Atalaia do Norte, Amazonas, que comprasse suas terras.

As cicatrizes e fragmentos de chumbo alojados nos corpos dos Korubo evidenciavam os ataques sofridos. Um deles, ocorrido em 1995, envolvendo ribeirinhos da comunidade Ladário, foi relatado à FUNAI posteriormente: seis korubo foram à uma roça de não-indígenas para pegar bananas e pernoitaram nas proximidades do roçado. No retorno para a maloca, foram emboscados e baleados por alguns homens. Um homem e uma mulher korubo caíram no chão, os demais fugiram. Quando os que haviam corrido retornaram, a mulher estava desfalecendo e o homem falecera. Por causa dos ferimentos e das dores, os Korubo não os enterraram, nem os transportaram. Após esse decesso, eles se esconderam no local onde foram contatados pela FUNAI em 1996 (Franciscato, 2000).

O último registro de reação violenta dos Korubo data de 2001, quando três madeireiros foram mortos no rio Quixito, próximo ao local onde a FUNAI abria uma clareira para a construção do segundo Posto de Vigilância e Proteção.

Em 2010 o subgrupo korubo contatado em 1996 constituía uma população de vinte e sete pessoas localizada no igarapé Quebrado, margem esquerda do rio Ituí. O subgrupo crescia paulatinamente após anos de decessos populacionais. Todavia, a situação sanitária no Vale do Javari se agravou. Por um lado, os contatos fortuitos com os isolados nas margens dos rios tornaram-se preocupantes enquanto possíveis fontes de transmissão de doenças; por outro, os recém-contatados também enfrentavam desafios sanitários.

Grupo isolado aparição às margens do rio Ituí, Terra Indígena Vale do Javari, Amazonas. Ana Paula A. de Melo
Grupo isolado aparição às margens do rio Ituí, Terra Indígena Vale do Javari, Amazonas. Ana Paula A. de Melo

Os isolados no médio rio Itaquaí e no médio rio Ituí estavam em contato iminente com os Kanamari e os Matis que circulavam por aqueles rios. Os contatos e a preocupação da FUNAI com a saúde dos isolados eram frequentes durante o verão (ISA, 2006-2010). Em 2007 a FPEVJ registrou catorze avistamentos dos isolados korubo nas margens dos rios (Amorim, 2008). Ao final daquele ano, os isolados chegaram a contatar os Kanamari duas vezes, e receberam objetos e doações de roupas usadas. No ano seguinte, a FUNAI comunicou-se à distância com os isolados no rio Itaquaí, alertando-os sobre os perigos envolvidos nesses contatos esporádicos (Oliveira, 2009).

Nessa época, a maioria dos Korubo recém-contatados já tinha sido removida para tratamentos de saúde nas cidades do entorno. Esse subgrupo dividiu a concentração inicial no igarapé Quebrado e formou duas aldeias no rio Ituí: uma na localidade Mário Brasil; a outra fundou uma aldeia chamada Roça. Eles estabeleciam relações de petição e troca com os não-indígenas da FPEVJ/FUNAI e da FUNASA. Sofriam com malária, doenças crônicas, como osteoartrose e até hepatites virais (Coutinho Júnior, 2008).

Mesmo com a homologação da TI Vale do Javari em 2001, as invasões continuaram e a fiscalização dos limites da TI era pauta no debate (Amorim; Conde, 2010). Em 2010 um sobrevoo da FPEVJ mostrou uma redução demográfica dos isolados korubo, supostamente ocasionada pela aquisição de doenças durante os contatos esporádicos nas margens dos rios Ituí e Itaquaí. Das nove malocas catalogadas nos anos 1990, apenas uma estava habitada.

Em 2012 os Korubo recém-contatados reorganizaram novamente a configuração de duas aldeias na margem esquerda do rio Ituí: Talawaka e Tapalaya. O subgrupo do contato oficial realizado em 1996 foi nomeado pela FUNAI como o “grupo da Maya”, uma matriarca korubo. Essa reduzida população enfrentava dificuldades para obter alimentos e realizar matrimônios. O contínuo estado de fuga anterior ao primeiro contato com a FUNAI os impediu durante muito tempo de manterem roças e malocas. Expressavam então à FUNAI o desejo de contatar os subgrupos korubo que permaneceram em isolamento, sobretudo, aquele localizado no rio Itaquaí.

Os recém-contatados chegaram a contatar os isolados à revelia do órgão indigenista em novembro de 2011. Na ocasião, houve um conflito, sem óbitos, em que os Korubo de recente contato foram atacados pelos isolados no rio Coari (Amorim, 2011; Vargas da Silva, 2017b). A comunicação com esse primeiro subgrupo korubo foi decisiva para os outros três contatos oficiais da FUNAI com os isolados em 2014, 2015 e 2019.

O primeiro contato oficial da FUNAI com o subgrupo korubo ocorreu, sobretudo, devido a conflitos com os não-indígenas. O segundo momento de contato oficial entre a FUNAI e outro subgrupo korubo foi em setembro e outubro de 2014, com a participação dos Kanamari, e a atuação em campo dos indigenistas Eriverto Vargas (Beto Marubo), Leonardo Lenin e Fabrício Amorim.

Desde 2005, durante os verões, a FPEVJ recebia relatos de avistamentos de isolados korubo nas margens do rio Itaquaí. A partir de 2013 um sobrevoo mostrou uma redução significativa das roças e malocas desses isolados (Vargas da Silva; Albertoni, 2014). Em agosto de 2014 a FPEVJ obteve notícias deles, pois apareceram próximos às roças kanamari da aldeia Massapê Novo, no rio Itaquaí.

No dia 22 de agosto de 2014, uma equipe da FPEVJ foi averiguar os relatos acima da foz do rio Branco, onde encontrou um casal e uma criança, e dialogou com eles à distância. A mulher apresentava infecção por acidente ofídico em uma das pernas. Com o auxílio de um tradutor korubo do “grupo da Maya”, o casal informou à equipe que aqueles que apareceram na aldeia kanamari eram os seus parentes e que não retornariam para as suas malocas, pois não havia roças e os mais velhos tinham falecido (Santos, 2014). Após o diálogo, a equipe investigou os vestígios e retornou para a BAPE sem realizar o contato com esse subgrupo.

Em setembro de 2014, os Kanamari da aldeia Massapê, no alto rio Itaquaí, avistaram seis isolados (o mesmo casal e quatro crianças) e os levaram para a aldeia. As equipes da SESAI e FUNAI, com tradutores matis e korubo, os levaram para a BAPE e, posteriormente, para junto do “grupo da Maya” no rio Ituí. Ali o subgrupo recém-contatado cumpriu quarentena e recebeu o atendimento médico.

O homem desse grupo chamava-se Visa e faleceu em 2020. Na ocasião, ele informou que seus parentes permaneceram isolados no rio Itaquaí, dentre eles, sua mãe, Lalanvet. Muitos deles estavam doentes e faleceram infectados por malária. Por causa dos óbitos, eles migraram para o alto rio Itaquaí e se instalaram próximos às aldeias kanamari.

No dia 08 de outubro de 2014 os Kanamari informaram que o restante desse subgrupo (quinze pessoas) apareceu em uma roça da aldeia Massapê Novo, dentre eles, a mãe e o irmão de Visa, Lalanvet e Pinu. Ao todo, nesse segundo contato oficial eram vinte e um korubo isolados no rio Itaquaí. Desde 2010 eles perambulavam pelo igarapé Marubo, também chamado Marubão. Por isso, a FUNAI os identificou como “grupo do Marubão” (Vargas da Silva, 2017b).

O terceiro momento de contato oficial entre a FUNAI e os Korubo envolveu os Matis e também aconteceu em duas etapas. Ainda em 2014, outro grupo de isolados korubo se aproximou da aldeia matis Todowak, construída em 2010 no rio Coari, uma antiga área de ocupação matis que foi retomada. Entretanto, com a ausência dos Matis durante quase trinta anos, a área havia sido ocupada pelos korubo isolados no interflúvio médio rio Coari e baixo rio Branco.

Em 05 de dezembro de 2014, a Coordenação Regional da FUNAI em Atalaia do Norte, Amazonas, foi notificada sobre um conflito entre os isolados e homens matis da aldeia Todowak (Pereira, 2018). Seis isolados apareceram quando três matis (Damë, Xucuruta e Tumi Tukun) plantavam milho e os atacaram com pedaços de pau. Era a primeira roça matis na margem direita do rio Coari. Os isolados levaram a arma de Tumi Tukun e deixaram a de Damë junto ao seu corpo (Matos, 2015). Tumi Tukun escapou. Damë e Xucutura faleceram.

O órgão indigenista inferiu que, após a mudança dos Matis das aldeias Aurélio e Beija-flor no rio Ituí para o rio Coari em 2010, os sucessivos encontros entre os Matis e os isolados korubo levaram à ocorrência de surtos epidemiológicos entre os isolados e, consequentemente, decessos populacionais que culminaram nesse ataque. Atualmente, os Korubo no rio Ituí argumentam que o fator propulsor desse ataque foi o falecimento de uma criança, Tiwa, que adoecera e seu pai, Mëlanvo, não teria conseguido curá-lo com plantas medicinais, passando a acusar os Matis de feitiçaria. Mëlanvo e outros dois korubo decidiram então atacar os Matis.

O conflito com os Korubo tensionou as relações entre os Matis e o órgão indigenista. Inicialmente, os Matis responsabilizaram a FUNAI pelas mortes de Damë e Xucuruta. Para os Matis, os isolados no rio Coari sentiram a falta dos Korubo que habitavam o rio Itaquaí (contatados em 2014), removidos pela FUNAI, a pedido dos recém-contatados, para junto dos demais no rio Ituí (contatados em 1996). A FUNAI em diálogo com os Korubo do rio Itaquaí soube que eles não estabeleciam relações com os isolados no rio Coari há décadas e, portanto, esse não era o motivo principal do ataque dos isolados aos homens matis na roça da aldeia Todowak (Pereira, 2018).

Após conversas e tensões, os Matis da aldeia Todowak aceitaram a proposta de se mudarem para as aldeias matis Tawaya e Bukuwak no rio Branco. Até então a possibilidade de uma retaliação por parte dos Matis aos isolados não havia sido confirmada. A FUNAI retornou ao local do ataque com um grupo matis e o sobrevivente Tumin Tukun esclareceu o conflito com os isolados. No dia 10 de dezembro de 2014 um matis da aldeia Todowak confessou à FUNAI que os Matis revidaram a morte de Damë e Xucuruta no dia seguinte ao conflito (06 de dezembro de 2014), matando vários isolados korubo que estavam em tapiris novos e possuíam milho plantado.

O fato é que, após a morte de Tiwa, os isolados atacaram os Matis, matando Damë e Xucuruta na roça da aldeia Todowak em dezembro de 2014. Essas duas mortes foram vingadas pelos Matis que, com espingardas, mataram no mínimo oito isolados. Por isso, os Matis apressaram-se em mudar a população da aldeia Todowak do rio Coari para as aldeias matis no Rio Branco. A partir de então, os Matis cobravam da FUNAI que o contato oficial com os isolados no rio Coari fosse realizado para evitar novos conflitos (Pereira, 2018).

Os Matis argumentavam que o contato da FUNAI com os isolados korubo seria uma forma de assegurarem a permanência das suas aldeias no rio Branco (Pereira, 2018). Em reunião, no mês de janeiro de 2015, a FUNAI esclareceu junto aos Matis que o translado do subgrupo korubo do rio Itaquaí para o rio Ituí foi uma decisão dos Korubo recém-contatados, que afirmavam não ter relações muito próximas com o subgrupo isolado no rio Coari.

A partir disso, os Matis argumentaram que as mortes de Damë e Xucuruta na roça da aldeia Todowak foram o resultado de outro conflito, ocorrido em novembro de 2011, entre os isolados no rio Coari e o “grupo da Maya” (contatados em 1996). Após esse incidente de 2011, os isolados no rio Coari passaram a travar encontros fortuitos com os Matis da aldeia Todowak. Na medida em que os Matis desciam às cidades do entorno para acessar políticas públicas, os encontros com os isolados tornaram-se frequentes (Vargas da Silva, 2017b).

Após essa conversa com os Matis em janeiro de 2015 diversas ações foram realizadas: um diagnóstico do uso do território compartilhado entre os Matis e os isolados (Matos, 2015); uma expedição de retorno à aldeia Todowak para recolher pertences que ficaram para trás na mudança, ocasião em que a FUNAI verificou vestígios da presença dos isolados na aldeia matis abandonada; outra expedição com os Matis no alto rio Branco; um sobrevoo em setembro de 2015 mostrou que grandes malocas korubo no interflúvio dos rios Coari e Branco estavam abandonadas. Havia novas roças e pequenas habitações em outros dois pontos distintos.

Os Matis e a FUNAI estavam se preparando para abertura da nova aldeia matis, nomeada Kudaya, no rio Branco, quando no dia 26 de setembro de 2015 via radiofonia a FUNAI soube que os Matis contataram uma parte de um subgrupo korubo isolado nas proximidades da aldeia Tawaya, no rio Branco (Pereira, 2018). Esse evento desencadeou o terceiro momento de contato oficial do órgão indigenista com os Korubo sob a atuação em campo dos indigenistas Eriverto Vargas (Beto Marubo), Bruno Pereira e Fabrício Amorim.

Os Matis rastrearam um cocho de paxiúba utilizado pelos isolados até encontrarem um grupo de crianças korubo. Levaram-nas para a aldeia Tawaya no rio Branco para chamar a atenção dos adultos. Outro grupo matis ficou no local aguardando os adultos retornarem atrás das crianças (FUNAI, 2016). Os adultos e as crianças foram levados para um acampamento no rio Branco. Ao todo eram dez pessoas: três homens, duas mulheres, um adolescente e quatro crianças. Uma equipe composta pela FUNAI e SESAI se deslocou para dar início ao plano de contingência em situações de contato.

Na aldeia Tawaya o clima era de tensão entre o órgão indigenista e os Matis. Por um lado, a FUNAI queria priorizar o atendimento sanitário devido às informações sobre a ocorrência de sintomas gripais entre os Matis e alguns Korubo recém-contatados. Por outro lado, os Matis preocupavam-se com a possibilidade da FUNAI remover os Korubo do rio Branco – conforme o que acontecera com os aqueles contatados no rio Itaquaí em 2014, transladados para o rio Ituí após o contato oficial com a FUNAI (Pereira, 2018). Ademais, os Matis demandavam que a FUNAI contatasse o restante dos isolados no rio Coari.

No dia 01 de outubro, a FUNAI decidiu então assumir a direção do contato e os Matis reagiram. Após horas de diálogo, os Matis aceitaram que a FUNAI coordenasse os trabalhos pós-contato com aqueles dez korubo contatados no rio Branco. Dias depois, no dia 07 de outubro de 2015, a FUNAI foi informada via radiofonia que os Matis encontraram outras onze pessoas, além das dez que já estavam cumprindo os procedimentos de quarentena.

Após os contatos efetuados pelos Matis com os korubo isolados, as discussões entre o órgão indigenista e os Matis sobre o destino dos recém-contatados continuaram. Com o consentimento dos dez korubo recém-contatados, os outros onze somaram-se ao mesmo acampamento onde a quarentena de todos foi reiniciada. Posteriormente, após outras tensões envolvendo os Matis e o órgão indigenista, os recém-contatados em 2015 se estabeleceram no rio Ituí, junto aos subgrupos contatados em 1996 e 2014 (Vargas da Silva, 2017b).

Após esse terceiro contato oficial entre o órgão indigenista e os isolados em 2015, permeado por conflitos com os Matis, uma parte dos Korubo permaneceu em isolamento no rio Coari. Por isso, tanto os Matis, quanto os Korubo contatados em 2015 pediam à FUNAI a realização do quarto contato oficial com essa parcela em isolamento.

Esse quarto momento de contato oficial entre a FUNAI e os isolados foi realizado em março de 2019 e envolveu a participação dos Korubo de recente contato: os Korubo contatados em 1996 atuaram como tradutores, enquanto os contatados 2015 foram os principais mediadores no diálogo com os seus parentes isolados no rio Coari.

Uma expedição chefiada pelo indigenista Bruno Pereira, com uma equipe de cerca de trinta pessoas (dentre elas, seis korubo), saiu da BAPE Ituí-Itaquaí no dia 03 de março de 2019 para o rio Coari e construiu um acampamento próximo ao igarapé Coarizinho. No dia 13 de março verificou-se que os isolados não estavam em suas malocas. A equipe passou a procurá-los nas roças antigas. Dias depois, a equipe de contato localizou dois isolados que se emocionaram ao reencontrarem seus parentes, contatados pela FUNAI em 2015. No dia seguinte a esse primeiro encontro outros vinte e dois korubo se aproximaram da equipe. Posteriormente, mais dez pessoas apareceram.

Ao todo, o quarto momento de contato oficial da FUNAI foi com um grupo de trinta e quatro korubo no rio Coari. Segundo informações da FUNAI: “Quatorze deles com idade aproximada entre 20 e 48 anos, sendo oito homens e seis mulheres, duas delas grávidas. O grupo conta, ainda, com 21 crianças e jovens de até 16 anos, sendo nove meninos e 12 meninas. Dessas, três bebês de menos de um ano de idade”.

Desde então a FUNAI em colaboração com a SESAI mantém um acampamento de contato no rio Coari para monitoramento da integridade física e sanitária desse subgrupo recém-contatado em 2019. O acampamento envolve equipes de trabalho que se revezam em média a cada trinta-sessenta dias. Cada equipe conta com a participação de dois a três homens korubo (dos subgrupos contatados em 1996, 2014 e 2015), que recebem da FUNAI pagamentos monetários ou em forma de bens.

Atualmente, existe outro subgrupo korubo em isolamento. Em 2012, a FUNAI registrou o ataque de isolados korubo aos Kanamari na margem esquerda do rio Curuena, afluente do alto rio Jutaí. No ano seguinte, através de sobrevoo, o órgão indigenista localizou roças e malocas dos isolados nessa localidade (Coutinho Júnior, 2018; Vargas da Silva, 2017a). Em outubro de 2020, um sobrevoo realizado pela União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (UNIVAJA) constatou que essa parcela dos isolados está sofrendo pressões do garimpo ilegal nessa porção da TI.

Cisões e dispersões

Entre o contexto de exploração extrativista na região e o contato com o subgrupo korubo no rio Branco em 2015 houve pelo menos cinco cisões internas que redefiniram as áreas de perambulação dos Korubo. Havia uma concentração das roças korubo no interflúvio dos rios Ituí e Itaquaí, na medida em que a área de perambulação se expandiu para outras regiões dentro da TI Vale do Javari.

A primeira cisão de que temos notícia foi motivada pelo rapto de duas mulheres entre os korubo. Essa ocasião foi narrada à FUNAI por integrantes do subgrupo contatado em 1996. Wio Maluxin e Maluxin, irmãs da Maya (matriarca do subgrupo contatado em 1996), foram raptadas por Txikit e levadas para viver próximo à bacia do rio Coari – configurando parte dos subgrupos que viriam a ser contatados pela FUNAI em 2015 e 2019. Esse evento estimulou relações guerreiras entre os grupos da Maya e do Txikit (Vargas da Silva, 2017b).

A segunda cisão ocorreu no rio Itaquaí e foi reflexo do massacre dos não-indígenas aos três korubo no lago Gamboá em 1989 (ISA, 1987/88/89/90). Na ocasião foram mortos pelos não-indígenas Paxtu, Patxi e Kanikit (irmão, cunhado e sobrinho da Maya). A morte dos três korubo despertou a ira de Nëmulo contra sua irmã, Maya, por ser a principal responsável pelos contatos esporádicos com os não-indígenas na beira dos grandes rios.

Nëmulo matou então Pete, Tëpi e Lua (marido, genro e filho da Maya). Nesse contexto de conflitos internos provocados por decessos populacionais resultantes de conflitos com não-indígenas, Maya separou-se de Nëmulo, levando consigo sua irmã Maluxin, Txuma e os filhos.

Estima-se que entre o final dos anos 1980 e o início dos anos 1990, o “grupo da Maya” passou a ocupar a área do rio Quixito, o rio Ituí e o igarapé Quebrado, margem esquerda do rio Ituí (Oliveira, 2019). Esse subgrupo saqueou roças das comunidades ribeirinhas Ladário e Monte Alegre até que, em 1995, outro massacre aconteceu: Txuma e Malu foram alvejados por não-indígenas (Franciscato, 2000). O subgrupo se escondeu até ser encontrado pela FUNAI em 1996, quando houve o primeiro contato pacífico e oficial.

Nëmulo e o seu grupo, dentre eles Lalanvet (a filha mais velha da Maya), permaneceram na região do rio Itaquaí e do interflúvio com o rio Jandiatuba até que a morte dele gerou uma terceira cisão, pois despertou a ira de Paxtu Vakwë. Mananvo temendo a reação de Patxu Vakwë dispersou com um grupo na direção do rio Jandiatuba, configurando a terceira cisão. O grupo de Paxtu Vakwë retornou para a confluência dos rios Ituí e Itaquaí, instalando-se na região do igarapé Marubo, enquanto o grupo do Mananvo foi em direção ao rio Curuena e permanece em isolamento (Vargas da Silva, 2017b).

As mortes de Paxtu Vakwë e outros korubo desse subgrupo no rio Itaquaí ocasionaram uma desestabilização. Eles passaram então a aparecer com frequência nas margens desse rio para pedir comida, aproximando-se das roças kanamari até serem contatados em 2014. A quarta cisão, gerada pela morte de Paxtu Vakwë, foi interna ao subgrupo korubo no rio Itaquaí: Pinu e Visa (este último falecido em 2020) passaram a disputar Malu após o falecimento de Paxtu Vakwë, o pai deles. Nesse contexto, Visa e Malu fugiram, apareceram próximo à aldeia kanamari e foram contatados primeiro pela equipe da FUNAI. Posteriormente, Pinu e o restante do grupo, incluindo Lalanvet, foram contatados.

Uma quinta cisão interna subjaz o contato realizado em 2015 no rio Branco, quase um ano após o conflito entre os isolados korubo e os homens matis na roça da aldeia Todowak. Um caso de relacionamento extraconjugal gerou uma cisão entre os Korubo no rio Coari. Uma parcela desse subgrupo atravessou o rio Branco e foi encontrada primeiro pelos Matis. Após o contato, a FPEVJ constatou que essa parte do subgrupo não levou manivas e sementes. Por isso, ficaram próximos das roças matis (Vargas da Silva et al, 2016). Os demais foram atrás deles e também foram abordados pelos Matis.

Atualmente, além do contato com o órgão indigenista, os Korubo de recente contato mantêm relações permanentes com a equipe multidisciplinar da SESAI e, no caso dos Korubo no rio Ituí, contatos esporádicos com pesquisadores e outros povos da TI Vale do Javari, especialmente os Marubo, povo com o qual compartilham esse rio. Em 29 de maio de 2019, por meio da Portaria nº693/PRES/2019, a FUNAI instituiu o “Programa Korubo”: pioneiro em ações integradas para o atendimento de povos indígenas de recente contato.

Eventualmente, os Korubo do rio Ituí deslocam-se à Tabatinga, Amazonas, com o apoio da FUNAI e/ou da SESAI, para atendimento à saúde, recebimento de pagamentos pelos serviços prestados à FUNAI, retirada de documentos, entre outros. Devido ao passado conflituoso com os não-indígenas e à condição de “recente contato”, os Korubo não deslocam-se ou circulam pelas cidades sem o acompanhamento das instituições.

População e aldeias

Índios Korubo, Terra Indígena Vale do Javari, Amazonas. Foto: Ananda Conde
Índios Korubo, Terra Indígena Vale do Javari, Amazonas. Foto: Ananda Conde

A população dos isolados korubo, de modo geral, apresentou significativos decessos ao longo dos anos 1980, 1990 e 2000. Todavia, o subgrupo contatado pela FUNAI em 1996, além de apresentar acréscimos na taxa de natalidade, somou-se aos subgrupos contatados em 2014, 2015 e 2019.

Nos anos 1980, segundo dados de Melatti, estimava-se que a população dos isolados korubo variava entre 200 e 2.000 pessoas (ISA, 1983). Em 1984, segundo estimativa de Cavuscens, esse contingente variava entre 200 a 300 pessoas (ISA, 1984), o que se confirmaria nos anos seguintes. Entre 1999 e 2000, o censo realizado pelo DSEI Vale do Javari registrou que, em 1985, a população dos isolados era 300 pessoas e, com os decessos significativos nos anos seguintes, restaram apenas 250 (ISA 1996-2000). Em contrapartida, a população recém-contatada pela FUNAI em 1996 crescia de 18 para 25 pessoas (ISA, 2001-2005).

Em informe no mês de junho de 2009, o movimento indígena do Vale do Javari expressou sua preocupação com um possível decesso entre os isolados korubo: das nove comunidades registradas desde os anos 1990, em sobrevoo observou-se que apenas uma delas estava visivelmente habitada, com redução significativa do tamanho das roças e malocas, sem vestígios de deslocamentos dos isolados para outras localidades (ISA, 2006-2010). Se, por um lado, os isolados sofriam decessos; por outro, os Korubo recém-contatados manifestavam índices de contaminação por hepatites virais (Coutinho Júnior, 2008).

Mas, ainda assim, a população korubo de recente contato continuava crescendo. Desde o contato realizado pela FUNAI em 1996, registraram-se quatro óbitos e nove nascimentos. Em 2009 os recém-contatados somavam 25 pessoas (Oliveira, 2009). No ano seguinte, em 2010, conforme censo realizado pela FPEVJ, os Korubo de recente contato passaram a 27 pessoas, inicialmente localizadas nas proximidades do igarapé Quebrado. Posteriormente, dividiram-se em duas localidades: uma aldeia nomeada Roça, e outra aldeia na localidade Mário Brasil. Nessa época, alguns recém-contatados já conheciam Tabatinga, Amazonas, através de remoções sanitárias feitas pela SESAI (ISA, 2006-2010).

Ainda em 2010, a população korubo total, envolvendo isolados e de recente contato, foi contabilizada em 142 pessoas (IBGE; FUNAI, 2010). Sete anos depois, em 2017, estimava-se que essa população era 150 pessoas, 82 delas em contato permanente com o órgão indigenista oficial (Vargas da Silva, 2017b). Às 82 pessoas, somaram-se nascimentos e as 34 pessoas contatadas no rio Coari em 2019.

Hoje, a população korubo de recente contato soma 127 pessoas. As 93 pessoas localizadas no baixo curso do rio Ituí estão divididas em quatro aldeias, próximas à BAPE/FUNAI na confluência dos rios Ituí e Itaquaí: Sentele Maë (também chamada Maë Xëni, Roça Velha), Tapalaya (na localidade Mário Brasil), Tankala Maë e Vuku Maë.

A concentração populacional das aldeias korubo é constantemente redefinida pela patrilocalidade e pelas cisões decorrentes dos conflitos entre grupos familiares. Na relação com os não-indígenas, a figura do cacique geral emerge e ganha evidência. Contudo, os Korubo de recente contato ainda funcionam sob a lógica dos grupos familiares extensos, característica que se reflete na configuração atual das quatro aldeias no rio Ituí.

A população korubo, de modo geral, é jovem. Os maiores índices etários dos Korubo do rio Ituí variam entre 0 e 34 anos de idade, com uma concentração de 20% do valor total entre crianças de 5 a 9 anos de idade, e apenas quatro pessoas com idade acima dos 50 anos, revelando os óbitos de praticamente todos os anciãos korubo antes da homologação da TI Vale do Javari. Após o último contato efetuado pelo órgão indigenista, em 2019, o saldo de pessoas com idade acima de 50 anos passou a cinco.

No rio Ituí, os Korubo de recente contato mantêm relações de estreita proximidade com a BAPE Ituí-Itaquaí por motivos diversos, dentre eles o atendimento sanitário. A BAPE é considerada uma das “micro-áreas” de atendimento do DSEI Vale do Javari, pois não há pólo-base da SESAI dentro das aldeias korubo no rio Ituí. Na BAPE, o DSEI Vale do Javari construiu uma Unidade Básica de Atendimento à Saúde Indígena (UBSI), onde se instala a equipe multidisciplinar que atende à saúde dos Korubo no rio Ituí em visitas periódicas, em alguns casos removendo pacientes korubo para observação e tratamento na BAPE.

Outra equipe de saúde localiza-se no rio Coari para atendimento das 34 pessoas contatadas pelo órgão indigenista em 2019. Apesar da medicina tradicional – choros rituais, banhos com plantas medicinais e a utilização de substâncias com potencial curativo –, os Korubo necessitam da assistência prestada pela SESAI para tratamento das doenças não-indígenas, como a malária e as síndromes gripais. Há ainda registro de casos crônicos de psoríase e osteoartrose entre os Korubo no rio Ituí.

A estrutura física das aldeias korubo, por sua vez, caracteriza-se pelo solo irregular e pela ausência de descampado entre a maloca e a floresta. A maloca (xuvu) é o principal componente da aldeia. Em torno dela estão os varadouros que levam aos banheiros, às roças, ao igarapé, à beira do rio e, mais recentemente, estão sendo construídas casas individuais.

Morada Korubo, Terra Indígena Vale do Javari, Amazonas. Foto: Ananda Conde
Morada Korubo, Terra Indígena Vale do Javari, Amazonas. Foto: Ananda Conde

A maloca tradicional korubo tem formato alongado hexagonal e duas portas, com cerca de um metro de altura, nos vértices frontal e posterior. Os Korubo passaram a utilizar fragmentos de mosquiteiros, tecidos ou lonas nas portas da maloca para evitar a entrada de insetos. No interior da maloca há fogueiras nas extremidades e/ou próximas das redes de dormir. Estacas fincadas nas porções laterais do chão da maloca, com cerca de um metro e meio de altura, são utilizadas para atar as redes dos grupos familiares, sem o uso de esteiras de palha.

Atualmente, uma maloca é construída por pequenos grupos de homens que extraem a matéria-prima, trançam e armam a estrutura: começando pelas laterais e finalizando pelos vértices frontal e posterior. A maloca passa por manutenções, sobretudo, no inverno, quando o eixo central do teto é reforçado por causa das chuvas. Trata-se de um espaço de comensalidade, produções artefatuais, rituais, conversas e reuniões entre os Korubo de diferentes aldeias e com as instituições estatais.

O centro da maloca (nantan) é um espaço ocupado pelos homens, que reúnem-se sentados em pequenos bancos de madeira, posicionados em formato circular, para planejar e relatar caçadas, avaliar a atuação das instituições, comentar as notícias e os acontecimentos das diferentes aldeias, comer e beber juntos. Atualmente, o nantan é também o espaço de recepção das visitas, homens e mulheres não-indígenas, que sentam-se nos pequenos bancos de madeira individuais, dispostos pelos Korubo logo que as visitas entram na maloca.

Morada Korubo na comunidade Mário Brasil Tapalaya, Terra Indígena Vale do Javari, Amazonas. Foto: Ananda Conde
Morada Korubo na comunidade Mário Brasil Tapalaya, Terra Indígena Vale do Javari, Amazonas. Foto: Ananda Conde

As mulheres e crianças, por sua vez, ocupam as laterais e o fundo da maloca, sentadas em suas redes, ou ainda, em esteiras de palha no chão. Essa disposição generizada acompanha a distribuição dos alimentos e a realização das refeições. O teto e as paredes da maloca servem ao armazenamento de alimentos – como pedaços de carne e milho reservados ao plantio nas novas roças –, das cerâmicas contendo curare e dos objetos industrializados que são ali pendurados.

Após o contato contínuo com os não-indígenas, verificam-se algumas modificações na estrutura e no cotidiano das aldeias korubo. Apesar da maloca ser ainda um espaço de moradia, uma das principais alterações é a recente construção de casas no estilo regional ao redor da maloca (wëtëkit): palafitas feitas com paxiúba e palha, habitadas por famílias nucleares. Trata-se de um padrão habitacional em processo de consolidação.

Outras três recentes estruturas nas aldeias korubo são posteriores ao contato permanente com o Estado brasileiro: a casa do rádio; a casa dos remédios (txiete xuvu) para os atendimentos da SESAI; e, a partir de 2019, as palafitas construídas especificamente para serem “escolas”, conforme dizem os Korubo. Mais recentemente, após a inserção do subgrupo contatado em 1996 em atividades de trabalho remuneradas junto à FUNAI, os Korubo começaram a adquirir por conta própria motores geradores de luz, modificando a dinâmica de funcionamento das aldeias, que agora independem unicamente da luz solar.

Sazonalidade e alimentação

As atividades produtivas dos Korubo estão diretamente ligadas à sazonalidade amazônica, a época das chuvas e do verão. Entre os meses de março e maio é o período privilegiado para as caçadas de macaco preto e macaco barrigudo, pois estão gordos. Nessa época, os Korubo saem das aldeias e acampam em tapiris na floresta para caçar e moquear grandes quantidades de carne, trazidas à aldeia após um tempo de consumo in loco. Durante o verão amazônico, com o surgimento das praias, destaca-se o consumo e a coleta dos ovos de quelônios.

Os Korubo apreciam macaco prego, macaco cheiro, preto, macaco-barrigudo, macaco da noite, zogue-zogue, guariba e parauacu que, tradicionalmente, são caçados com zarabatana, do mesmo modo que a preguiça e espécies de aves, como mutum, jacamim, arara-vermelha, cujubim e jacu. Destes, o mutum ocupa um lugar privilegiado. Personagem do mito de origem da agricultura, por vezes, o mutum torna-se animal de criação dos Korubo, junto a cachorros, gatos, espécies de macacos, preguiças e jabutis.

Apreciam o consumo de répteis, como jacaré, algumas espécies de rãs, tracajás e jabutis. Alimentam-se também de mamíferos de pequeno, médio e grande porte, como paca, cutia, caititu, preguiça, veado, tamanduá, quati e, os mais cobiçados, a anta e os queixadas.

As caçadas geralmente são feitas por grupos de homens e meninos aprendizes. Em algumas caçadas, sobretudo de queixadas, mulheres e crianças os acompanham. As mulheres ajudam a tratar a caça e também a carregá-la, transportando à aldeia. Todavia, os jabutis são espécies reservadas à caçada por mulheres. Há mulheres korubo com a reputação de exímias caçadoras de jabutis.

Uma substância potencializadora das caçadas é o tatxik: cipó do gênero Paullinia, utilizado pelos Korubo de diversas formas. Um dos principais usos desse cipó é a bebida amarga, potencializadora dos processos de cura e das caçadas, consumida por mulheres mais velhas e homens. Os caçadores, homens e jovens aprendizes, tomam tatxik antes e depois das caçadas, durante a madrugada e ao longo do dia, sentados em bancos de madeira individuais, posicionados em formato circular no centro da maloca ou nas casas individuais. Os Korubo no rio Ituí passaram a adotar o uso de espingardas e cachorros nas caçadas.

Além da obtenção de proteína por meio das caçadas, os Korubo coletam mel e frutos diversos. De fevereiro a maio, coletam grandes quantidades de açaí e, entre maio e agosto, coletam buriti. Nesses períodos, a alimentação e a dinâmica de circulação dos Korubo giram em torno desses frutos que são acompanhados por proteína e produtos da roça. A coleta do açaí é feita pelos homens que sobem nas palmeiras com o uso de peconha e retiram grandes cachos, trazidos à maloca para extração da polpa com o auxílio das mulheres. A coleta do buriti, por sua vez, envolve mulheres e crianças que recolhem os frutos caídos no chão enquanto brincam e conversam, comendo e separando uma quantia para levar às aldeias.

Outras frutas consumidas, coletadas inclusive por crianças, são ingá, abiu, cacau do mato, cupuaçu, bacuri, cubiu e mamão. Homens, mulheres e jovens korubo coletam pelo menos três tipos de mel, que envolvem a derrubada das árvores e, a depender das espécies de abelha, o uso ou não de fogo.

As tecnologias de pesca dos Korubo eram adaptadas ao pequenos igarapés e corpos d’água no interior da mata com a utilização do timbó, da lança e de pedaços de pau. Durante o verão destaca-se a captura do poraquê com o uso do timbó. Outras espécies de peixe capturadas com essa técnica são o bodó e a traíra. Após o contato com o órgão indigenista oficial, os Korubo no rio Ituí passaram à apropriação dos materiais de pesca não-indígena, como malhadeiras, anzóis, linhas e iscas. Ao expandirem a área de pesca dos igarapés para o leito dos grandes rios e lagos, ampliou-se a gama de peixes acessados pelos Korubo, como pirarucus, pirararas, espécies de mandi etc. A pesca apresenta-se como uma atividade complementar à agricultura itinerante e à obtenção de proteína através das caçadas.

A abertura das roças organiza as atividades ao longo do ano. Inicia-se com a derrubada das árvores de pequeno porte com o uso de terçado e, posteriormente, de grande porte com o auxílio de machado. Após a derrubada, acontecem as queimas e o repouso do solo, preferencialmente durante a estação seca e, por fim, o plantio. Acompanhados por mulheres e crianças, os homens fazem a derrubada, a queima e o plantio, enquanto as mulheres colhem, transportam, cozinham e distribuem os produtos da roça.

Em geral, nas roças korubo cultiva-se macaxeira, milho, banana, pupunha, e espécies de inhame e cará. Destacam-se a macaxeira e o milho – onipresentes no cotidiano korubo e, no caso do milho, envolvido em rituais, semelhante a outros povos Pano. Conforme o que acontece atualmente com o padrão residencial – a construção de casas unifamiliares em torno da maloca –, o processo de sedentarização dos Korubo no rio Ituí reflete-se na proliferação de roças unifamiliares. No preparo dos alimentos oriundos da caça, pesca e coleta, verifica-se a preeminência do cozimento e o preparo de bebidas e mingaus a partir dos produtos da roça.

Cultura material

A cultura material korubo é composta por armas de guerra, caça e pesca, adornos corporais, cestaria, trançados, madeiras e cerâmicas. A zarabatana, seus dardos e aljava, o arco-flecha, a lança e as bordunas pertencem ao conjunto das armas para guerra, caça e pesca. Atualmente, as armas mais utilizadas pelos Korubo são a zarabatana e um dos tipos de borduna. O uso da zarabatana envolve ainda o preparo do curare a partir da combinação de diferentes cipós.

A zarabatana serve, sobretudo, à caçada de animais arborícolas, como aves e diferentes espécies de macaco. Envolve não apenas um processo inicial de produção, mas a necessidade de constante manutenção e um local específico para armazenamento: as porções laterais do teto da maloca. Os Korubo e os Matis são os dois povos da TI Vale do Javari que caçam com zarabatana e bebem tatxik.

No conjunto das armas korubo há dois tipos de borduna: ixvante e mete. Esta última, também chamada kweynamete por derivar da pupunheira (kweynat), é o tipo de borduna mais utilizada pelos Korubo atualmente. Após os conflitos, as bordunas eram cravadas no chão, uma insígnia bélica. Os mais velhos contam que as bordunas eram artefatos presentes nas reuniões, ícones das narrativas homéricas sobre como eles mataram onças e retiraram seus dentes. Antigamente, o comprimento das bordunas variava: as menores, utilizadas dentro da maloca contra ataques inimigos; as maiores, utilizadas na floresta. Atualmente, por não serem mais atacados como outrora, os Korubo deixaram de fabricar as pequenas bordunas.

Com exceção das armas de guerra, caça e pesca, grande parte da cultura material korubo é produzida pelas mulheres. Há que se considerar que mesmo as armas possuem acessórios feitos pelas mulheres, como a corda do arco, a alça da aljava e as bolsas para armazenamento do algodão, componente da zarabatana. A maior parte da produção das mulheres korubo concentra-se nos trançados e na tecelagem – redes, testeiras, braçadeiras, tipoias para carregar cestos e crianças, pratos/esteiras, abanadores e colares –, produzidos a partir da extração da fibra de tucum (tote): palmeira derrubada e manipulada por mulheres, cujo uso estende-se aos âmbitos ritual e xamânico.

A derrubada de tucum pode mobilizar uma aldeia e durar o dia inteiro: enquanto os homens caçam, as mulheres derrubam as palmeiras com machados, acompanhadas pelas crianças. Após a extração, a fibra de tucum seca ao sol e, posteriormente, as artesãs fazem dela um longo fio que constituirá o novelo. Após construído o novelo, os fios são posicionados em teares para a montagem dos artefatos.

A rede é um dos artefatos korubo mais presentes no cotidiano das aldeias e, semelhante a zarabatana, passa por manutenções: suas amarrações são desfeitas e refeitas de tempos em tempos após as lavagens. Extremamente estimadas como presentes trocados entre os Korubo.

Outro artefato onipresente no cotidiano korubo são os pratos e as esteiras de palha (piski). Diferente de outros artefatos, como as cerâmicas e os cestos, produzidos por mulheres mais velhas, os pratos de palha são feitos por mulheres de todas as idades e estão presentes em todas as refeições, apesar de os Korubo no rio Ituí já acessarem utensílios domésticos industrializados.

As redes e os pratos de palha são os artefatos produzidos com maior frequência pelas mulheres. Elas não apenas fabricam os pratos de palha, mas posteriormente administram a distribuição dos alimentos em diferentes piski. Além da comensalidade, o piski é também um assento para as mulheres e está presente no círculo dos homens, no preparo da bebida feita com cipó tatxik, raspado e ralado sobre um piski.

As mulheres korubo fabricam dois tipos de cesto e, para a produção de bebidas fermentadas, um tipo de peneira. O cesto kakan é bastante utilizado no transporte dos produtos da roça à maloca, ou ainda, dos itens pessoais quando os Korubo saem das aldeias – carregado nas costas com ponto de apoio na cabeça, semelhante ao modo como carregam suas crianças. Atualmente, o cesto tsitsan raramente é feito, pois sua fabricação envolve a extração de grande quantidade de cipó-titica, matéria-prima também utilizada na fabricação das vassouras para a limpeza do interior das casas e da maloca.

Os Korubo fabricam ainda artefatos esculpidos em madeira, como bancos, remos e raladores com dentes de macaco-barrigudo. As panelas e pratos de cerâmica possuem tamanhos variados, feitos por mulheres mais velhas, passam por vários processos que vão da coleta da argila às queimas. As cerâmicas também são utilizadas pelos homens no cozimento e armazenamento do curare, veneno vegetal para caçadas com zarabatana.

Os Korubo possuem diferentes padrões de pinturas corporais. Frequentemente à base de urucum com ou sem látex das seringueiras e, raramente, de jenipapo. Há pelo menos três padrões de pintura corporal relacionados a animais, constituídos por combinações de bolinhas, linhas verticais e horizontais. A pintura corporal korubo, os diferentes usos de artefatos corporais feitos com palmeira muru-muru e o adorno das bordunas estão atrelados a subgrupos com incidência política e ritual. No passado, houve cisões entre esses subgrupos. Hoje, os Korubo de recente contato que habitam o rio Ituí majoritariamente se autoidentificam Xiavo em relação aos que estão no rio Coari, os Txikitxoevo.

Uma novidade na cultura material korubo é a incorporação das miçangas, obtidas por doação ou compra. Não raro, uma peça obtida na cidade é desfeita na aldeia para a distribuição das miçangas entre as mulheres, que constroem colares: longos e utilizados de forma cruzada sobre o peito das mulheres e meninas, ou ainda, colares curtos utilizados de modo não cruzado por homens e meninos.

Atualmente, os Korubo das quatro aldeias no rio Ituí participam de dois Projetos de Cooperação Técnica Internacional de Salvaguarda do Patrimônio Linguístico e Cultural de Povos Indígenas Transfronteiriços e de Recente Contato na Região Amazônica, da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) em parceria com o Museu do Índio/FUNAI: o Prodoclin, voltado à documentação da língua korubo, com vistas à elaboração de um dicionário, coordenado pelo linguista Sanderson Oliveira; e o Prodocult voltado à documentação e salvaguarda da cultura material, com vistas à elaboração de um catálogo digital e à construção de uma coleção korubo para o acervo do Museu do Índio, no Rio de Janeiro, equipe coordenada pela antropóloga Beatriz Matos. Esses dois projetos e as atividades no âmbito do “Programa Korubo” têm sido oportunidades de intercâmbios entre os Korubo e os não-indígenas.

Os artefatos, produzidos principalmente para o autoconsumo, estão sendo redescobertos pelos Korubo como uma fonte de renda para as comunidades: vendas de artefatos na cidade, com o apoio da FPEVJ, ou ainda, transações realizadas entre os Korubo e os agentes institucionais. Em 28 de março de 2019, os Korubo do rio Ituí participaram pela primeira vez de um evento de compra-venda de artefatos em Benjamin Constant, Amazonas, ocasião em que compreenderam a logística de uma feira, estabeleceram relações diversas e conheceram a produção artefatual de outros povos indígenas.

Fontes de informação

O acervo documental disponível sobre os Korubo compreende dois períodos: de 1920 aos anos 2000, e a partir dos anos 2000. Esse acervo narra, sobretudo, as relações conflituosas entre os Korubo e os não-indígenas no âmbito das múltiplas experiências de contato prévias e durante os contatos oficiais com o órgão indigenista.

O período histórico incide sobre o perfil dessas produções documentais que ganham certa densidade após o contato oficial com o “grupo da Maya” em 1996. Dessa forma, antes do primeiro contato oficial com a FUNAI o que existia era uma série de relatos dos avistamentos e conflitos envolvendo os isolados e os não-indígenas das frentes extrativistas e de atração.

A partir do contato realizado em 1996, a FUNAI esclareceu alguns aspectos relacionados às cisões internas e dispersões dos Korubo e, paralelamente, através de sobrevoos, expedições terrestres e geoprocessamento mapeou os subgrupos que permaneceram em isolamento. Ao mesmo tempo, na medida em que outros contatos oficiais com subgrupos korubo foram realizados (2014, 2015 e 2019), uma série de relatórios técnicos foram produzidos. Uma parcela dos Korubo passou então de “isolados” à categoria de “recente contato”, o que trouxe uma série de implicações na relação entre os Korubo e o Estado brasileiro.

Os acervos do Museu do Índio/FUNAI e do Programa Povos Indígenas no Brasil, do Instituto Socioambiental (ISA), registram acontecimentos envolvendo os Korubo entre os anos 1928 e 2011. A partir dos anos 2000 há uma produção documental diversificada de relatórios, diagnósticos e trabalhos acadêmicos que mencionam ou tematizam os Korubo.

Nesse contexto duas produções acadêmicas destacam-se: Oliveira (2009) e Vargas da Silva (2017b). A primeira é uma dissertação de mestrado em Linguística que tematiza a fonologia da língua falada pelo primeiro subgrupo korubo contatado em 1996. A segunda é uma dissertação de mestrado interdisciplinar realizada por um geógrafo e servidor do órgão indigenista e, portanto, enfatiza o tema da territorialidade. Trata-se de duas produções pioneiras sobre os Korubo que, embora não possuam caráter antropológico, registram aspectos importantes relacionados à língua, às cisões internas aos subgrupos, ao modus operandi da FUNAI e aos contatos oficiais. Outros trabalhos acadêmicos tematizam os Matis, mas mencionam os Korubo em diversos trechos, como Erikson (1996) e Arisi (2007).

O primeiro trabalho de campo de caráter antropológico junto aos Korubo de recente contato, com vistas à produção acadêmica, foi realizado em 2019 e 2020. No contexto da pandemia do novo coronavírus, essa pesquisa fomentou algumas reflexões iniciais acerca do atendimento à saúde dos Korubo de recente contato (Silva, 2020a; 2020b; Silva; Marques, 2020). Ademais, duas teses de doutorado sobre os Korubo estão sendo produzidas: Juliana Oliveira Silva no âmbito do Programa de Pós-graduação em Antropologia Social do Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro; e Bernardo Natividade Vargas da Silva no Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.


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  • Amorim, F. (2011). Relatório sobre o conflito entre os Korubo recém contatados e os Korubo isolados do rio Coari. Fundação Nacional do Índio, Coordenação Geral de Índios Isolados e Recém Contatados, Frente de Proteção Etnoambiental Vale do Javari.
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  • Söderström, E. (2002). The Hidden Tribes of The Amazon. França: Striana-France Films, DVD (55 min.)

Ver também

Especial Sebastião Salgado na Amazônia - Korubo